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Como parte das comemorações dos 460 anos da cidade de São Paulo, os paulistanos ganharão um presente extra: a já tradicional nhocada do Pastifício Primo. É uma espécie de piquenique em que a aclamada rotisseria oferece o nhoque em troca da integração com sua clientela. A proposta é que o encontro seja irreverente e informal. A regra é uma só: levar pratos e talheres de louça, em benefício do meio ambiente. A expectativa para a quarta edição do evento é que cerca de 500 pessoas apareçam no local – que, por sinal, só será divulgado no próprio dia 25 às 9h na página do Pastifício Primo no Facebook. Para atender a tamanha demanda, o artesão de massas Ivan Schiappacasse Bornes preparou 100 quilos de nhoque.

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Vítima da diáspora uruguaia – processo de migração desencadeado pela política da Ditadura Militar (1973 a 1985) –, Ivan veio com os pais para o Brasil com 9 anos de idade. O caçula da família, nascido no Uruguai em 1970, deixou para trás as irmãs mais velhas – casadas e estabelecidas no país natal – e cresceu sem criar raízes. Morou em Porto Alegre, cidade onde o pai artista plástico decidiu se enclausurar, até se tornar maduro o suficiente para se virar sozinho.

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Ivan Schiappacasse no comando do Pastifício Primo

Ivan tinha 17 anos quando, sem ainda ter completado o Ensino Médio, agarrou a mochila e se mandou para a Europa. Pingando de cidade em cidade, teve seu primeiro contato com o mercado gastronômico. “Trabalhei em restaurantes – lavando pratos e depois auxiliando na cozinha –, e me dei muito bem”, lembra. Ficou um ano na Argentina se dedicando à prática do montanhismo, atividade que ele considera ser um espelho do empreendedorismo. “Exige planejamento, investimento e junção de recursos materiais e humanos”, justifica. Em 1990, Ivan alcançou o topo do Cordón del Plata (5.550 metros de altura). A pressão social (“todos os meus amigos já estavam na faculdade”) o incentivou a voltar ao Brasil para tentar traçar um caminho que lhe garantisse um futuro estável.  Passou no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1991. “Larguei o curso de Publicidade e Propaganda em dois semestres”, confessa, sem lamentar o fracasso do plano.

Durante a década de 90, Ivan morou em Porto Alegre, onde abriu uma agência de viagens. “Conciliava meu trabalho com minha grande paixão: a de conhecer lugares novos”, suspira. Foi numa dessas experiências que teve o estalo do negócio que mudaria sua vida: “Estava na Itália, em busca de Vespas antigas, quando encontrei um conjunto de máquinas de pasta usadas”, lembra. Apaixonado por antiguidades, Ivan não pensou duas vezes antes de comprar as peças. “Imaginei-as pintadas, cromadas e restauradas como as Vespas”, diz. De volta ao Brasil, concretizou a visão e montou seu primeiro negócio gastronômico: uma fábrica artesanal de massa, o Pastifício Italiano, em sociedade com Sebastião Heidemann.

O empreendimento fez sucesso imediato em Porto Alegre. Mas Ivan sabia que, para alcançar reconhecimento no mercado, teria que mostrar a cara em São Paulo. Em 2009, o uruguaio vendeu a sua parte no negócio e se mudou para a capital paulista. Alugou um quarto em uma república na Rua Lisboa, na esquina da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, e percorreu o bairro de bicicleta. Numa de suas andanças, encontrou um estabelecimento fechado na esquina da Artur de Azevedo com a Fradique Coutinho, no mesmo bairro em que morava. Era uma loja que acabara de encerrar as atividades. “O lugar perfeito!”, vibrou Ivan na hora. Ele e o sócio Marcelo Nonohay inauguraram o Primo Pastifício em 29 de janeiro de 2010 – Dia do Nhoque! (“total coincidência…”, jura). Daí a ideia de se fazer uma nhocada para comemorar os aniversários do negócio.

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Em poucos meses, a aceitação do público já era clara. Para Ivan, o segredo está no minimalismo: “Nós apostamos em uma comida simples com um preço justo”.  As massas de Ivan passaram a ser encontradas em supermercados chiques e, em 2013, receberam o reconhecimento da crítica: o Pastifício Primo (primeiro, em italiano) foi escolhido pela revista Veja S. Paulo e pelo jornal Folha de S. Paulo a melhor rotisseria da cidade. Há seis meses, a loja investe no projeto “Massa na Rua”, que oferece refeições por R$ 9,90 para serem degustadas nas calçadas. “Já teve dia em que 150 pessoas se aglomeraram na nossa esquina”. Isso tudo antes de o prefeito Fernando Haddad sancionar a lei que autoriza comida de rua em São Paulo, de 28 de dezembro de 2013. Hoje, o Primo Pastifício é uma rede com quatro endereços (dois na capital, uma franquia em Fortaleza e outra em Sorocaba, interior de São Paulo). Uma loja no bairro da Mooca (Zona Leste) está planejada ainda para este ano. No ano passado, Ivan fechou as portas da deficitária loja em Moema.

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Refeição do projeto Massa na Rua

A Primo vende atualmente 8 mil quilos de massa e 10 mil quilos de molho por mês. Sob o lema “Viver é massa!”, sorridente e extasiado por contar sua história, só tem a atenção desviada pelos rostos conhecidos que passam pelo caminho. “Oi, vizinha!”, cumprimenta uma passante, como se vivesse em uma província. “Amo o caos da metrópole”, diz, apesar de se recusar a pegar o carro na cidade. “Combinei com minha mulher que só aceitamos convites para festas às quais possamos ir a pé”. A exceção veio depois do casal de gêmeos, que chegou há pouco mais de um ano. “Equipei nosso Fusca com duas cadeirinhas de bebê”, conta, orgulhoso. Aos 43 anos, já se sente realizado? “Que nada! Só depois da décima loja”, brinca. Também falta conquistar o Everest. “É um plano para daqui a dez anos, quando os gêmeos já estiverem crescidinhos”.

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