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Kantuta é uma flor vermelha, verde e amarela, que cresce na região dos Andes. Por ter as mesmas cores da bandeira da Bolívia, foi escolhida para batizar uma praça em que se reúnem, semanalmente, cerca de 2 mil imigrantes andinos no bairro do Pari.

Aos domingos, acontece na Praça Kantuta uma feira de artesanato e gastronomia organizada por bolivianos que residem no país. Alimentos típicos, roupas e itens de artesanato são vendidos em barracas durante toda a tarde. Há até o famoso chá de coca à venda.  Faz parte da cultura boliviana mascar as folhas da planta ou consumi-la em forma de chá (em sachês industrializados ou em sua forma natural).

Mas a estrela do evento sempre foi  o campeonato de futebol, que chamou a atenção do professor de Educação Física Ubiratan Silva Alves. No próximo domingo, dia 1º de julho, ele lança o livro ‘Praça Kantuta – Um pedacinho da Bolívia em São Paulo‘.

futbolivianos

“Eu via bolivianos em trajes esportivos e me perguntava em que parte da cidade eles jogavam futebol”, conta Alves. O campeonato de futebol, que acontecia duas vezes por ano, foi cancelado depois que um vereador retirou as traves e o alambrado da quadra, prometendo reformá-la – e nunca mais voltou. Alves contou esta e outras histórias da Praça Kantuta ao Blog do Curiocidade:

Apenas bolivianos podiam participar do torneio?
Não. A maior parte dos times é de bolivianos, já que são organizados pelos donos das tecelagens da região. Mas também há times com jogadores paraguaios, peruanos e até um constituído apenas por brasileiros que moram em um conjunto habitacional da região.

Cada tecelagem tem seu próprio time?
Os donos das tecelagens, que são chamados de “delegados”, colocam seus funcionários para jogar em campeonatos. A vitória é garantia de prestígio para o delegado, que fica responsável por comprar e lavar uniformes, além de trabalhar como técnico e dizer quem entra em campo.

Como você se aproximou dos imigrantes para fazer a pesquisa do livro?
Foi um trabalho demorado. Quando vi que aconteciam as competições na praça, passei duas ou três semanas à paisana, observando os jogos. Depois, descobri que imigrantes frequentavam missas na igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério. Passei a ir à missa no local e só então cheguei aos participantes de campeonatos. A situação deles aqui é difícil. Boa parte deles está em situação ilegal no Brasil, com uma rotina de trabalho puxada e exaustiva. Por isso, os latinos são desconfiados em relação a jornalistas e pesquisadores.

Os times treinam?
Não treinam, e isso era o que mais me preocupava. Por ficarem a semana inteira sentados, apenas trabalhando nas máquinas de costura, os imigrantes são atletas de fim de semana. É perigoso, pois não havia nenhum tipo de acompanhamento médico na Praça Kantuta. Por sorte, nos dois anos em que acompanhei a competição, ninguém passou mal por causa do esforço.

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Depois da retirada das traves, a quadra está inutilizada

Por que o campeonato não existe mais?
Por causa de reformas na quadra, que nem chegaram a acontecer. Um vereador, cujo nome não me lembro, foi até a praça e mandou retirar traves, alambrado e tudo mais, prometendo que ia reformar o local. Na hora, parecia uma coisa boa, mas a reforma nunca aconteceu. Agora, é impossível realizar partidas na quadra. Tentamos conseguir patrocínio de empresas para melhorar a situação, mas nenhuma se interessou. Os times se espalharam por quadras nos arredores da Zona Norte da cidade.

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