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O Edifício Matarazzo tem inquilino novo. João Dória, prefeito eleito de São Paulo em outubro, tomou posse ontem e irá dar expediente nos próximos quatro anos no prédio de 14 andares, localizado no Vale do Anhangabaú, junto ao Viaduto do Chá, no centro de São Paulo. Hoje foi o primeiro dia de trabalho no edifício neoclássico, inaugurado em 1939, como sede das Indústrias Reunidas Matarazzo, que ficou lá até 1970. O Edifício Matarazzo funciona como sede administrativa da Prefeitura Municipal desde 2004.

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O Edíficio Matarazzo, no Vale do Anhangabaú: novo inquilino

Conhecido como Palácio do Anhangabaú ou “Banespinha”, por ter sido uma das sedes do Banco do Estado de São Paulo até 2003, o prédio foi projetado pelo italiano Marcello Piacentini, arquiteto favorito do ditador Benito Mussolini.

O italiano Francisco Matarazzo chegou ao Brasil no ano de 1882. O nome “Matarazzo” se tornou sinônimo de empreendimento e desenvolvimento industrial em 1911, com a criação das IRFM (Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo). O complexo industrial chegou a empregar 6% da população paulistana em 365 fábricas dos mais diversificados produtos e tinha a quarta maior renda bruta do Brasil –  hoje o patrimônio seria equivalente a 20 bilhões de dólares. Matarazzo (1854-1937) era o homem mais rico do país.

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Moinho Matarazzo, uma das primeiras fábricas de São Paulo

A diversificação dos produtos produzidos pelas empresas funcionou no começo do século XX, quando não havia um parque industrial no país. À medida em que a competição foi surgindo, outras fábricas começaram a produzir melhores produtos. A falta de agilidade, especialização e modernização geraram grandes gastos e, junto com os confrontos familiares, levaram o negócio à falência. As fábricas acabaram, mas a história continuou. Principalmente para José Antonio Vignoli, que tem uma coleção com mais de 300 itens da família Matarazzo. “Meu pai era industrial, então eu sempre me interessei por fábricas”, lembra Vignoli. “A Casa das Caldeiras, na Água Branca, me impressionava muito quando eu era criança”.

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Medalha comemorativa dos 100 anos do nascimento do Conde Francisco Matarazzo, distribuída no lançamento da Faculdade Francisco Matarazzo (onde funciona hoje o Palácio dos Bandeirantes)

A coleção que começou pequena, na década de 1980, com simples recortes de jornais, hoje ocupa a sua casa na região central e um galpão no centro da cidade. Entre os itens estão medalhas (como a comemorativa dos 100 anos de nascimento do conde), documentos (entre eles uma agenda de 1931 onde estão catalogados os produtos fabricados pela família), embalagens e louças.

Em São Caetano do Sul, colecionador resgata memórias das Indústrias Matarazzo

Vignoli (foto abaixo) encontrou grande parte das peças de sua coleção em feiras de antiguidades e antiquários, como uma embalagem de glicerina líquida da década de 1920. Mas garante que os mais especiais são aqueles que ele ganhou de presente. “A história da minha coleção vai se espalhando e algumas pessoas me doam alguns objetos”, conta. “Um antigo funcionário da Matarazzo me procurou e, além de me dar uma xícara de café da época, me presenteou com várias histórias também”.

O item mais inusitado, porém, fica por conta de uma Ambulância da Química Matarazzo. O Chevrolet Caravan de 1980 ficava em uma das indústrias localizadas em São Caetano do Sul, no tempo que as empresas eram obrigadas a ter uma ambulância em cada unidade. O carro, que foi presente de um amigo, só saia do galpão até o fim da década de 80, quando ele passeava pelas redondezas, deixando as pessoas do bairro surpresas. “Acho esse resgate da história muito importante. Muitas pessoas não têm noção do que os Matarazzo representaram para a cidade”, explica o consultor financeiro. “Isso acontece porque não se preservou as memórias”.

A pedido do São Paulo para Curiosos, José Vignolli fez um roteiro com os principais pontos de São Paulo que ajudam a resgatar a trajetória da Família Matarazzo:

1)  Shopping Cidade São Paulo
Inaugurado no dia 30 de abril de 2015, o Shopping Cidade São Paulo ocupa o terreno onde antes ficava a mansão do conde italiano Francisco Matarazzo,  no número 1230 da Avenida Paulista.

As obras duraram quatro anos, mas a movimentação em torno do terreno começou em 1989. Membros da família Matarazzo teriam tentado, sem sucesso, derrubar com explosivos o casarão de 19 quartos e 16 salas. A justificativa oficial foi que o imóvel estava com problemas hidráulicos, o que exigiria muitos gastos, mas, para os técnicos da prefeitura daquele período, o real motivo seria escapar de um processo de tombamento. Um ano depois, a então prefeita Luíza Erundina decidiu desapropriar o a mansão para instalar no local o Museu do Trabalhador, que nunca saiu do papel.

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O shopping Cidade São Paulo e a Torre Matarazzo, que foram construídos no lugar da Mansão Matarazzo (acima)

A obra do centro de compras, que tem 160 lojas em cinco pisos, funcionou como uma espécie de escavação arqueológica. Foram encontrados tijolos com as inscrições IRFM (Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo), que agora encontram-se guardados no escritório dos administradores.

Ao lado do shopping foi construída a Torre Matarazzo, com uma área de 1 mil metros quadrados, onde terão 13 pavimentos de escritórios, espaço para eventos e 7 subsolos de estacionamento (total de 1.557 vagas). Além disso, a construção também contempla um espaço para uso público com áreas de descanso e convivência.

2)  Praça Conde Francisco Matarazzo Junior
Em 1920, Francisco Matarazzo instalou na Água Branca, junto à linha da estrada de ferro, um parque industrial onde produzia produtos como perfumes, pregos, adubos, inseticidas e velas. Localizada na região da Barra Funda, o espaço funciona agora como a praça Conde Francisco Matarazzo Junior.  Lá ficou por 50 anos a estátua do Conde. Na década de 1980, porém, quando as indústrias faliram, ela foi deslocada para a frente do Shopping West Plaza. De lá, logo foi para a praça Raízes da Pompéia, no cruzamento das avenidas Francisco Matarazzo e Pompeia, onde Matarazzo se reunia com seus funcionários. Em 2014, a praça foi cercada por grades de três metros de altura. A justificativa oficial é de que as grades previnem danos em enchentes.

3)  Casa das Caldeiras
Os edifícios Casa das Caldeiras e Casa do Eletricista foram construídos em 1920, no bairro da Água Branca, e faziam parte do primeiro parque industrial com noção de verticalização da produção. Além disso, esse complexo industrial também tem a importância de ser a marca de expansão espacial das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo na cidade. Até então elas se concentravam na zona leste e se restringiam à produção de farinha e tecidos.

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A Casa das Caldeiras com as chaminés que marcam a história das indústrias Matarazzo

Nesse complexo eram produzidos sabonetes, álcool, óleo vegetal, vela, possuía mecânica e fundição, sacarias, entre outros. Os diversos setores do complexo eram interligados por passarelas internas. A área de cem mil metros quadrados era privilegiada pela proximidade das linhas de trem que transportavam a matéria-prima e os produtos produzidos.

O espaço monumental de alvenaria de tijolos possui três enormes chaminés e um pé direito altíssimo para abrigar as imensas caldeiras. O complexo foi tombado em 1986 e, depois de restaurado em 1998, voltou a participar dos acontecimentos da cidade como um espaço para eventos sociais, artísticos e culturais.  Hoje, apenas uma parte do espaço ainda está preservada e, ali, foi inaugurado um prédio comercial de 26 andares.

4)  Parque Piqueri
A antiga Chácara do Piqueri, que deu origem ao parque, foi criada em 1927 pelo Conde Francisco Matarazzo. Localizada junto à foz do ribeirão do Tatuapé, o espaço era formado por uma casa sede, pomar, granja e área para criação de diversos animais como cavalos, búfalos, lhamas e veados. Foram plantadas mais de 50 espécies de árvores nativas e exóticas, como um teste para observar quais se adaptavam melhor ao clima de São Paulo. Havia também uma fábrica de queijos e uma área destinada às Indústrias Matarazzo.

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O Parque Piqueri com sua alameda principal ornamentada com árvores da espécie Sibipuruna

Em 1976, a área do parque foi incorporada ao patrimônio municipal e sua inauguração aconteceu um ano depois. O Parque do Piqueri ainda guarda as características estéticas dos antigos proprietários. Na entrada é possível observar o gradil do portão de entrada, datado de 1901, que foi transferido do Parque da Luz. A alameda principal é ornamentada com árvores da espécie Sibipuruna. O rio Tietê beirava o limite da chácara, sendo possível visualizar, com dificuldade, restos do ancoradouro dos barcos onde os visitantes eram recepcionados. E a casa, que serviu de residência para a família Carpinelli, funciona hoje como a administração do Parque.

5)  Busto de Chiquinho Matarazzo
Em fevereiro de 2009 o então prefeito Gilberto Kassab inaugurou um busto em homenagem ao Conde Francisco Matarazzo Júnior, conhecido como “Chiquinho Matarazzo”. A estátua foi implantada no Largo 1º de Maio, no centro do distrito de Ermelino Matarazzo, em que a origem está ligada à família e suas fábricas.

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O busto de Ermelino Matarazzo, localizado no Largo 1º de maio

Na cerimônia de inauguração, Kassab também entregou diplomas de Honra ao Mérito para ex-funcionários das Indústrias Matarazzo em agradecimento por terem contribuído com o desenvolvimento da cidade de São Paulo.

6)  Distrito Ermelino Matarazzo
Ermelino Matarazzo, distrito localizado na Zona Leste, presta uma homenagem ao filho mais velho de Francesco Matarazzo. Foi o primeiro filho do conde nascido no Brasil e foi seu sucessor no comando dos negócios. Essa região começou a se desenvolver em 1926 com a chegada da estação ferroviária Comendador Ermelino Matarazzo durante o desenvolvimento industrial de São Paulo. As áreas ao redor da estação foram ocupadas pelas indústrias Matarazzo e Cisper, e a criação de vilas.

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O distrito Ermelino Matarazzo fica na Zona Leste de São Paulo

Com o tempo, as indústrias passaram a dar preferência para bairros próximos às rodovias, alterando o perfil da região para um distrito predominantemente residencial de trabalhadores, devido aos terrenos baratos e de pouco infraestrutura. A atividade econômica da região é o comercio e serviços, estando ainda algumas indústrias, sobretudo químicas, instaladas no local.

7)  Hospital Matarazzo
Inaugurada em 1904, a construção de 27 mil metros quadrados na Bela vista, abrigou um dos principais hospitais de São Paulo, o Umberto Primo, também conhecido como Hospital Matarazzo. Com iniciativa dos imigrantes italianos, o objetivo era prestar atendimento de saúde à colônia na tentativa de suprir a falta de serviço público. Com projeto do arquiteto Giulio Micheli, a obra foi realizada com doações principalmente das famílias Crespi, Pignatari, Gamba, Falchi e Matarazzo. O conde Francisco Matarazzo teve papel importante no surgimento do hospital, pois este foi erguido pela seção de construção das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, de onde também vieram os azulejos e louças.

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Imagem aérea do Complexo Matarazzo, com a intervenção da exposição “Made by…Feito por brasileiros”

O complexo contava com casa de saúde, maternidade, capela e consultórios. Tornou-se referência em saúde pela estrutura e pelo pioneirismo em tratamentos e pesquisas. E, em suas instalações, há duas estátuas que remetem à família Matarazzo. Na entrada do terreno, duas eram as estátuas: uma do Conde Francesco Matarazzo e outra de Ermelino Matarazzo. A outra ficava localizada aos pés de uma das escadas principais, sendo o busto de Ermelino Matarazzo.

Em 1996, a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil comprou o imóvel para a instalação de hotel e conjuntos médicos. O projeto nunca saiu do papel e o imóvel ficou fechado por 17 anos.

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Estátua do Conde Francesco Matarazzo localizada na entrada do antigo Hospital Matarazzo

No segundo semestre de 2014, o Hospital Matarazzo recebeu a mostra “Made By…Feito por Brasileiros”, em que os visitantes circulavam por projetos feitos especialmente para o espaço e que lembravam a história do local: a poeira prensada no chão e duas ambulâncias, de anos atrás, empilhadas.

Foi também em 2014 que o governo mudou o tombamento de 1986, permitindo a demolição de um dos edifícios. Vendido por R$117 milhões para o grupo francês do empresário Alexandre Allard, o espaço passará por uma grande reforma. Prometendo manter a estrutura, será instalada a Cidade Matarazzo, abrigando um hotel de luxo, restaurante, galeria de arte, cinema e teatro.

8) Palácio dos Bandeirantes
A construção foi iniciada em 1955 e deveria receber a Universidade Conde Francisco Matarazzo, com cursos de Economia e Administração de Empresas. Por problemas financeiros, a faculdade nunca chegou a ser inaugurada. O governo paulista desapropriou o imóvel no bairro do Morumbi em 1964 e se instalou ali já no ano seguinte. Antes ele já havia funcionado no no Colégio dos Jesuítas, no Pátio do Colégio, entre 1760 e 1911, e a antiga residência do fazendeiro Elias Chaves, conhecido como Palácio dos Campos Elíseos. O projeto foi do arquiteto italiano Marcello Piacentini, responsável também pelo Edifício Matarazzo.

Roteiro:

Edifício Matarazzo
Viaduto Do Chá, 15 – Centro

Shopping Cidade São Paulo
Avenida Paulista, 1230 – Bela Vista
Tel: 3595-1230

Praça Conde Francisco Matarazzo Junior
Avenida Francisco Matarazzo, 1501

Casa das Caldeiras
Avenida Francisco Matarazzo, 2000 – Água Branca
Tel: 3873-6696

Parque Piqueri
Rua Tuiuti, 515 – Tatuapé
Tel: 2097-2213

Hospital Matarazzo
Alameda Rio Claro, 190 – Bela Vista

Palácio dos Bandeirantes
Avenida Morumbi, 4500 – Morumbi

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