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Quando entrou em operação, no dia 12 de abril de 1936, o Aeroporto de Congonhas chamava-se ainda “Campo de Aviação da Companhia Auto-Estrada”. Tinha apenas uma pista de terra batida, com 300 metros de extensão e 70 metros de largura, mas já era o suficiente para os amantes da aviação experimentarem o início do mercado aéreo brasileiro. A construção foi feita para atender uma emergência. Frequentes enchentes costumavam alagar o Rio Tietê e, por tabela, o aeroporto do Campo de Marte, às suas margens. A inauguração do novo aeródromo reuniu 8 mil pessoas, que ficaram sabendo do evento em um convite publicado no jornal O Estado de S. Paulo. A informação está no livro “Aeroporto de Congonhas – Terminal de Passageiros – Histórias da Construção”. Pilotos experientes testaram a pista e atestaram, por escrito, a boa localização do novo aeroporto. Pilotos cobravam 50 réis dos interessados por um voo de 10 minutos na ocasião.

CONSTRUCAO

Construção do aeroporto de Congonhas da década de 1940

A palavra “Congonhas” é derivado do tupi “kõ’gõi”, que significa “erva que sustenta”. Uma cidade no interior de Minas Gerais com um grande número desse tipo de arbusto recebeu o nome de Campo de Congonhas. Ali nasceram o escultor Aleijadinho e também Lucas Antônio Monteiro de Barros, que se tornaria o primeiro presidente da Província de São Paulo, em 1824. Conhecido como Visconde de Congonhas, ele foi dono de grande parte da área em que hoje se localiza o aeroporto. Um bisneto do Visconde de Congonhas vendeu o terreno em 1936.

O primeiro projeto para estação de passageiros foi realizado pelo prefeito Prestes Maia em julho de 1937. Sua ideia não seguiu adiante em razão da recessão econômica provocada pela Segunda Guerra Mundial. O projeto foi arquivado em 1943 e, cinco anos depois, outra planta seria criada pelo arquiteto Hernani do Val Penteado, com colaboração de Raymond Jemien. As obras tiveram início em 1948 e reuniu de aspectos da modernidade à geometria do art déco. A construção é considerada, até hoje, um marco na arquitetura paulistana.

Em meados da década de 60, a efervescência econômica e cultural tomava conta do país e de Congonhas também. O café do aeroporto era conhecido como um ponto de encontro da boemia. Vinicius de Moraes e o inseparável parceiro Toquinho marcavam presença no local sempre que se apresentavam em São Paulo.

Congonhas é também uma galeria de arte. São 16 obras que se espalham por todo terminal de passageiros.O arquiteto francês Jacques Monet assina espelhos decorados com motivos diversos, que enfeitam o Pavilhão de Autoridades, assim como um painel de madeira pintado com o mapa do Brasil e representações das cinco regiões do país na sala de embarque. Di Cavalcanti também está entre os artistas. Em conjunto com Clóvis Graciano, ele desenvolveu um mural de 56 m² batizado de “Os Trabalhadores”. Descendo a escada que dá acesso ao subsolo, o mosaico de pastilhas de vidro chama atenção. A obra foi feita pelo arquiteto do aeroporto Hernani do Val Penteado. O painel mais recente é de Eduardo Kobra. Inaugurado em 2013, ocupa uma área de 39 m² no corredor que dá acesso ao saguão principal. Ele retrata o aeroporto no século passado.

Congonhas (2)

Mosaico geométrico de Hernani do Val Penteado e  Raymond A. Jehnlen é uma das principais obras da “galeria de arte” do aeroporto

Congonhas foi administrado pelo DAESP (Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo) até 1981. Naquele ano, a gestão passou para as mãos da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), ligada ao governo federal. Atualmente, a rede da Infraero é composta por 60 aeroportos e Congonhas é considerado o número 1 tanto em relação à quantidade de pousos e decolagens quanto ao número de passageiros. No ranking nacional, porém, aparece em terceiro lugar, atrás dos aeroportos internacionais de Guarulhos e de Brasília.

Mesmo aqueles não tem boa memória fotográfica conseguiriam se lembrar de onde é o famoso piso em forma de tabuleiro de xadrez. Formado por quadrados em placa de granito preto e mármore branco, o piso é uma das características mais marcante do aeroporto de Congonhas. O piso é da década de 1960 e incorporou-se ao terminal de passageiros de tal forma que ficou na memória da população, tornando-se parte da identidade visual do aeroporto. Nas lojas de construção esse tabuleiro passou a ser chamado de “Congonhas”.

Congonhas (4)

O piso preto e branco, da década de 1960, virou marca registrada de Congonhas

A uma distância de 659,74 metros em linha reta do aeroporto, está um hotel de 11 andares e quase 50 m de altura que foi alvo de muita polêmica. Sua construção foi inicialmente autorizada pela Aeronáutica em 2000. Depois do acidente de um avião da TAM, em 2007, a existência do hotel – parte do complexo de prostituição de luxo Bahamas – passou a ser contestada por pilotos, pela aeronáutica e pela prefeitura da cidade. A casa foi fechada e o então prefeito, Gilberto Kassab, chegou a cogitar a demolição do hotel. O dono do lugar, o empresário Oscar Maroni, chegou a ser preso. O Bahamas voltou a funcionar em 2013.

O pior acidente da história da aviação do país aconteceu em Congonhas. Debaixo de chuva, às 18h54 do dia 17 de julho de 2007 um Airbus A-320-233 da TAM não conseguiu pousar. O avião ultrapassou os limites da pista e, atravessando a avenida Washington Luiz, bateu no prédio da TAM Express, causando uma explosão. O voo vinha de Porto Alegre e todos os 187 passageiros e tripulantes morreram, além de 11 funcionários do prédio e de um taxista que estava no posto de gasolina ao lado do acidente. Cerca de 250 bombeiros trabalharam para controlar o fogo. Em homenagem as vítimas, a Praça Memorial 17 de Julho foi inaugurada cinco anos depois no local em que o prédio da TAM Express estava construído. Outro acidente triste aconteceu em 31 de outubro de 1996. Apenas 24 segundos depois de decolar, o Fokker 100 da TAM perdeu altitude, caiu no vizinho bairro do Jabaquara e explodiu. O acidente matou 99 pessoas.

“Prainha” era como os paulistanos se referiam às passarelas que cobriam as duas alas do aeroporto. O lugar virou uma espécie de mirante e famílias iam ao aeroporto para acompanhar os pousos e as decolagens das aeronaves. Hoje os mirantes não funcionam mais.

PRAINHA

Passarelas que cobriam as duas alas do aeroporto se transformaram em mirantes

O sítio aeroportuário tem 1.647.000m². Isso significa que caberiam 9 estádios do Maracanã dentro de Congonhas. São 77.321m² referentes ao pátio de aeronaves, 64.579m² do terminal de passageiros e 15.291,92m² dos prédios administrativos.

Atualmente, Congonhas realiza um total de 585 pousos e decolagens por dia. Isso dá uma média diária de 52.800 pessoas, contando também as conexões. Em 2015, o aeroporto contabilizou 213.835 pousos e decolagens e atendeu 19,2 milhões de passageiros.

O hall de embarque possui 78 balcões de check-in e 57 totens de autoatendimento. A Gol e a TAM possuem 23 cada uma, enquanto a Azul tem 7 e a Avianca, 4.

O fumódromo, do lado de fora do saguão principal, tem oito bancos, que dividem espaço com três bustos de aviadores famosos e lixeiras com cinzeiros. Os bustos de bronze homenageiam Alberto Santos Dumont, o pai da aviação, e os comandantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral, pioneiros da travessia aérea do Atlântico Sul. O mais antigo é o Santos Dumont, esculpido por Victor Brecheret em 1945, e oferecido pelo Rotary. Os outros dois foram esculpidos pelo artista brasileiro Luiz Morrone. A escultura de Gago Coutinho foi doada ao aeroporto em 1964 pelo comendador José Maria de Almeira. O busto de Sacadura Cabral foi instalada ali em 1972.

BUSTOS 4

Os três bustos fazem parte do conjunto de 16 obras de arte espalhadas pelo aeroporto

Dentro do Aeroporto de Congonhas, trabalham 6.304 funcionários, isso sem contar pilotos e comissários de voo.

O Aeroporto de Congonhas abriga um total de 11 empresas aéreas. Apenas quatro – Avianca, Azul, a Gol e TAM – operam voos comerciais. A principal é a TAM, com 43% dos pousos e decolagens, seguida de perto pela Gol, com 42%. A Avianca é responsável por 9% deles e a Azul por 6%. As outras sete empresas aéreas fazem fretamento de jatinhos: Interávia, Líder, Morro Vermelho, Premier, Tam Marília, Vector e Target. Trabalham também com gerenciamento de aviões (empréstimo de aparelho que pertence a pessoa física para uma empresa de táxi-aéreo). “Há dois anos, fazíamos 30 voos por dia, mas hoje esse número caiu pela metade”, contabiliza Milton Possa, funcionário administrativo da Líder há 4 anos. Em 2015, 768.728 voos domésticos foram realizados por aviões fretados.

A loja mais vistosa do saguão principal de Congonhas é a Laselva, que já foi a maior rede de livrarias de aeroportos do país. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em maio de 2013, com dívidas estimadas na época em 120 milhões de reais. A Laselva fechou várias lojas e passou a receber de editoras e distribuidoras apenas com pagamento à vista. A livraria foi fundada em 1949 por Onófrio Laselva.

Primeiros anos da hoje devedora Livraria Laselva no saguão principal

Primeiros anos da hoje devedora Livraria Laselva no saguão principal

A ponte aérea mais movimentada do Brasil é a Rio-São Paulo. Ela representa 22% do movimento do aeroporto oitentão. Vicente Chiata trabalha no Banco Itaú e viaja para o Rio de Janeiro todas as semanas há dois anos. “Não tenho uma companhia aérea preferida”, afirma ele. “O principal é a hora do voo. Escolho o que se encaixa melhor para mim”. Os outros destinos mais procurados são Belo Horizonte (10%), Brasília (9%) e Curitiba (8%). As demais cidades respondem pelos outros 51% dos voos.

Desde 2014, a voz das chamadas dos voos é da atriz e locutora Ana Paula Aquino. A proposta da Infraero é padronizar todos os aeroportos da rede com uma mesma identidade sonora. Elas estão sendo feitas pela agência Zanna Sound.

Congonhas possui 15 hangares destinados à aviação geral e outros 4 à aviação comercial. Um é de uso exclusivo da Gol, outro da Avianca e os dois restantes são da TAM. A Azul não possui hangares no aeroporto porque sua sede é no Aeroporto de Viracopos, em Campinas-SP.

Avião decolando da pista principal, com os hangares ao fundo

Avião decolando da pista principal, com os hangares ao fundo

Até 8 de dezembro de 2015, os aviões que deixavam o Aeroporto de Congonhas só eram autorizados a voar num raio máximo de 1.500km. Por isso, em São Paulo, apenas o Aeroporto de Guarulhos fazia viagens para o Norte e o Nordeste do país. Nesta data, a distância máxima foi dada como indefinida pela ANAC e as empresas aéreas puderam incluir destinos como Natal, Manaus, Macapá, Maceió, Palmas, Aracaju, Belém, Fortaleza e São Luís. Em 2016, o número de destinos saindo do aeroporto aumentou, chegando agora a 30.

Às 18h20 do último dia 12 de janeiro, o Aeroporto de Congonhas ficou fechado por 15 minutos por causa de um cachorro, que invadiu a pista e começou a driblar funcionários. Ao pousar, o capitão de um aeronave avistou o animal e avisou a torre de controle, que decidiu fazer uma pausa no tráfego até que o animal fosse capturado. Congonhas é o quarto principal aeroporto de embarque e desembarque de animais de estimação feitos pela Gol, ficando atrás do Aeroporto Internacional de Guarulhos, de Brasília e do Rio de Janeiro. O transporte é feito há apenas um ano e 1.755 cães e gatos já viajaram saindo de Congonhas dentro das cabines da Gol. As outras empresas não forneceram esse dado.

O Pavilhão de Autoridades do Aeroporto de Congonhas ganhou notoriedade em março passado, por ter sido palco do depoimento do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva à Polícia Federal, em uma das fases da Operação Lava Jato. A inauguração do salão foi realizada pelo então presidente Getúlio Vargas em 1954. Criado exclusivamente para embarque e desembarque de autoridades, já teve visita de pessoas ilustres na década de 1950 – quando o aeroporto ainda atendia voos internacionais. O salão é tão requintado que dentro do banheiro feminino há uma sala para descanso e um jardim de inverno. A decoração de maior valor é a pintura que contrasta a vida urbana com roça de 16 m por 3,5 m feita por Di Cavalcanti e Clóvis Graciano. Uma inundação destruiu o piso original, de peroba, que precisou ser substituído em 1980. Um novo projeto de reforma prevê a retomada do piso original.

Congonhas (1)

Jardim de inverno e sala de repouso no banheiro feminino estão entre os requintes do Pavilhão de Autoridades

Quem fica com as chaves para abrir e fechar o aeroporto? Ninguém! Congonhas está sempre com as portas abertas, embora os voos só aconteçam entre 6h e 23h. As madrugadas são usadas para o serviço de limpeza pesada e o sistema de reparos das 8 escadas rolantes e dos 10 elevadores. Há muitos passageiros em conexão que preferem se acomodar em uma das 2.243 cadeiras do saguão a ter que pagar uma diária num hotel nas redondezas.

O Aeroporto de Congonhas foi apontado como o 2º megahub mais pontual do mundo em 2015, segundo o “Official Airline Guide” (OAG), de uma consultoria britânica de monitoramento de viagens aéreas. Fica atrás apenas do Aeroporto Internacional Haneda, em Tóquio. O ranking listou os campos de aviação com o maior número de conexões entre voos em um determinado dia. A pontualidade é definida pelo índice“On-Time Performance”, pelas partidas e chegadas que ocorrem em menos de 15 minutos após o horário previsto.Congonhas foi também apontado pelo OAG como o 6º aeroporto de médio porte mais pontual entre 400 aeroportos monitorados diariamente.

No centro do corredor de desembarque, há uma porta com um aviso bem comum no aeroporto: “Acesso Restrito”. Até aí, nada demais. O curioso é que essa entrada é vigiada o tempo todo por um funcionário da segurança, que não pode arredar pé dali. Sua função é garantir que apenas os carrinhos de bagagem passem por lá. O acesso é proibido até para funcionários, exceto quando um deles está empurrando um punhado dos 1.800 carrinhos do aeroporto. “Preciso manter a porta fechada e não posso deixar que nada e ninguém passe por aqui. Só os carrinhos entram aqui”, proclama Sebastiana Araújo. O fluxo é constante. “Pego os carrinhos espalhados pelo aeroporto, vou juntando e, quando tenho uma boa quantidade, levo todos para a sala de desembarque”, explica Josinaldo Cavalcante, encarregado do serviço. “Entro e saio por essa porta umas vinte vezes por hora”.

CADEIRAS 4

Josenaldo Cavalcante em uma das vezes que passa pela porta restrita empurrando os carrinhos, sob a vigilância de Sebastiana Araújo

Até 1985, Congonhas realizava voos internacionais, mas com a inauguração do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos, tais voos foram transferidos para lá. A retirada do “internacional” do nome de Congonhas, porém, só foi feita 23 anos depois, em 2008. Por determinação da Anac, o aeroporto passou a se chamar Aeroporto de São Paulo – Congonhas. Teoricamente, Congonhas não realiza mais essa categoria de voo, mas em casos de necessidade, o aeroporto pode ser autorizado a recebê-los ou originá-los. Esse alfandegamento em caráter excepcional exige a realização de procedimentos prévios junto à Infraero e à Receita Federal (alfândega), que deve publicar a decisão no Diário Oficial da União.

Para evitar a degradação do patrimônio histórico, por causa das constantes ampliações e reformas, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) tombou áreas do Aeroporto de Congonhas em março de 2012. Considerando o valor urbanístico, histórico, arquitetônico e afetivo, os elementos escolhidos foram o Pavilhão das Autoridades, a Estação de Passageiros e uma estrutura de madeira em arco triarticulado dos hangares.

Congonhas (3)

A pintura de Di Cavalcanti e Clóvis Graciano tem 56m² e ocupa uma parede inteira do Pavilhão de autoridades

Quem já não se viu fazendo uma caminhada pelos portões de embarque do aeroporto? É comum que passageiros sejam repentinamente surpreendidos pela troca de portão de embarque enquanto aguardam na sala. Esses 22 portões de embarque vivem mudando de número O principal motivo é a alteração da programação feita pelas próprias companhias aéreas, por causa de atrasos, cancelamentos ou troca de equipamentos. Outro motivo corriqueiro para mudanças de portões tem ligação com a prioridade de embarques e desembarques de cadeirantes nas pontes de embarque. Os voos com passageiros portadores de algum tipo de necessidade especial possuem preferência na alocação das 12 posições de fingers (pontes de embarque), causando mudanças de última hora.

Há 40 banheiros no Aeroporto de Congonhas – 19 femininos, 19 masculinos e dois familiares. Os rolos de papel higiênico são repostos em média a cada duas horas.

O bicicletário do Aeroporto de Congonhas tem apenas seis vagas e apenas quatro são utilizadas diariamente. Todas por funcionários. Ele fica na calçada do subsolo, próximo à entrada do estacionamento. “Nos quatro meses que trabalho aqui nunca vi ninguém deixando a bicicleta para ir viajar”, conta o segurança Márcio Ajala. O usuário não paga nada para usar o equipamento, mas é necessário ter o próprio cadeado. A administração não se responsabiliza pelas bikes deixadas ali.

Márcio Ajala e o pequeno bicicletário, usado apenas por funcionários

Márcio Ajala e o pequeno bicicletário, usado apenas por funcionários

Em caso de emergência, o aeroporto conta com 8 veículos: 1 de resgate e salvamento, 4 de combate a incêndio, 1 de apoio e 2 ambulâncias, sendo uma UTI. Cinco cadeiras de rodas estão disponíveis para utilização no terminal de passageiros. Para o transporte interno de passageiros, Congonhas tem 22 ônibus convencionais e 1 micro-ônibus.

Por dia, as 294 lixeiras de Congonhas recebem 4,3 toneladas de detritos. Isso dá, uma média de 81 gramas por visitante. Graças às 156 específicas para coleta seletiva, 21,6% do lixo é encaminhado para reciclagem. Em cima de alguns coletores há um display digital em serviço da veiculação de informações de sobre reciclagem e reaproveitamento de materiais, além de informes publicitários. Os coletores são produzidos com material transparente para facilitar a visualização do conteúdo descartado e acelerar o trabalho de inspeção da equipe da segurança. Tal medida foi adotada em junho de 2014, às vésperas à Copa do Mundo, atendendo à recomendações da Polícia Federal. Em outubro do mesmo ano, os coletores ganharam o atual visual, mais moderno e alinhado às questões sustentáveis.

Por que tantas lojas do Aeroporto de Congonhas pregaram o cartaz “Não tiramos xerox. Favor não insistir” em suas portas? Isso é culpa da agência dos Correios. Quando produtos importados precisam ser retirados, mas, por algum motivo chegam do exterior com o nome do destinatário incompleto, os funcionários exigem a cópia do documento para efetuar a entrega. E aí o coitado sai à procura de uma máquina de xerox nas dependências do aeroporto. “Havia um boxe só com impressão e xerox que fechou porque não conseguia cobrir o valor do aluguel”, lamenta um funcionário do balcão de informações da Infraero. Há um mês, um quiosque que conserta celulares passou para a oferecer o serviço para o público. Atende 50 pessoas por dia e cobra 5 reais por folha de impressão. O quiosque fica logo abaixo da escada do saguão principal.

Por que tantos avisos sobre cópias xerox?

Por que tantos avisos sobre cópias xerox?

Um grupo de mulheres domina os altos cargos de Congonhas. Eliana Akemi Kogima é a superintendente da Infraero, Fernanda Herbella, a delegada titular da Polícia Civil; Sônia Francisca Pereira Ribeiro Gonçalves, chefe do posto da Anvisa; Elisa Pereira, gerente da TAM no Aeroporto de Congonhas; Eneida Carauta exerce a mesma função na Gol; e Regina Nascimento, na Avianca.

Congonhas tem 71 equipamentos com informações de voos. São 60 monitores e 11 videowalls. Além disso, 178 câmeras de segurança e fazem o trabalho de monitoramento.

A limpeza das obras de arte e do patrimônio tombado merece atenção especial. O corrimão da escadaria do saguão, por exemplo, é lustrado de três em três dias com produtos especiais. “Quem passa por aqui sempre percebe quando eles são limpos”, conta Camila Angelina Santos Silva, coordenadora de Comunicação Institucional. “O brilho salta aos olhos de manhã. Ao longo do dia, ele fica com aspecto de engordurado de tantas mãos que encostam ali”. Os três bustos da área externa são lustrados uma vez por mês.

Os climatizadores gigantes não passam despercebidos no hall principal do aeroporto. Cinco ventiladores robustos chegam até a atrapalhar a passagem no corredor. Por se tratar de uma área tombada, a instalação de aparelhos de ar condicionado é proibida. A circulação de ar feita por esses equipamentos ameniza o calor. “Os passageiros compreendem a importância do patrimônio histórico”, opina Lúcia Gonçalves, funcionária da Comunicação da Infraero.

Congonhas (8)

O corrimão, que precisa ser sempre lustrado, cerca todo o primeiro piso. Do lado direito, um dos cinco climatizadores gigantes

A sala de Achados e Perdidos fica no primeiro piso do aeroporto. Todos os itens encontrados são registrados no sistema e ficam armazenados por um período de 30 dias. Se os donos não aparecerem, duas alternativas podem ser determinadas pelo juiz responsável: doação para instituições sociais ou leilão. Já passaram por lá cadeiras de rodas, muletas, andadores, troféus e até pranchas de surfe. Documentos pessoais, como passaportes e identidades nacionais, são encaminhados ao órgão responsável pela emissão. Em média, 30 itens são perdidos por dia e apenas 37% deles voltam às mãos dos proprietários. As esteiras de raio-X, no acesso ao embarque, são os locais com maior índice de esquecimento de carteiras. Para alertar os viajantes, mensagens sonoras são veiculadas no sistema de som do terminal a cada 30 minutos.

Apostando nas Olimpíadas, o aeroporto recebeu em agosto de 2015 a loja “Rio 2016”, que vende produtos especiais com o logo do evento. Vinícius, Tom e Ginga, mascotes dos jogos, são os produtos mais procurados. “Vendemos uma média de 10 pelúcias por dia”, conta o funcionário Rafael Braga. “Os números estão muito abaixo do esperado. O país, no momento, está voltado para a política e tem ignorado os Jogos Olímpicos”, opina Rafael Braga, funcionário da loja há 8 meses.

 Funcionário da loja Rio 2016, Rafael Braga exibe Ginga, mascote da delegação brasileira

Funcionário da loja Rio 2016, Rafael Braga exibe Ginga, mascote da delegação brasileira

Ao todo são 6 vending machines se espalham pelo aeroporto. Entre doces, bebidas e até lanches naturais, a mais curiosa é a I2go. Ela fica estrategicamente localizada no saguão de embarque do aeroporto e reúne fones de ouvido, carregadores de celular, baterias portáteis e cadeados para os esquecidinhos de plantão. A bateria portátil, por exemplo, sai por R$69,90.

Congonhas tem dois serviços de táxi regulamentados. O Rádio Táxi Vermelho e Branco conta com 615 carros, e a Associação Motoristas Táxi Comum, com 456.

Apesar de todas as recomendações, tem gente que ainda tenta passar pelos aparelhos de raio-x com tesouras, estiletes, facas e produtos químicos. Cerca de 70 itens são retidos nos canais de inspeção por dia. Tesourinhas de cortar unha são as campeãs.

Esqueceu o celular? Nada de desespero. Congonhas tem ainda 67 telefones públicos. O grande problema é encontrar um lugar que venda cartões telefônicos. A reportagem do Blog do Curioso só conseguiu achar os cartões na agência dos Correios. A loja só funciona de segunda a sexta, das 9h às 19h.

Dois salões de beleza funcionam no Aeroporto de Congonhas. Por exigência das companhias aéreas, todos os funcionários precisam estar com as unhas bem apresentáveis. Um deles se instalou no primeiro andar em julho de 2015. Ocupa um espaço de 19m² e pode atender ao mesmo tempo duas pessoas para serviços de manicure e duas para cabelo. “Fazemos em torno de 10 unhas por dia”, conta a paraibana Ana Xavier, proprietária do negócio. Toda semana, diz ela, tem alguém que sai correndo para não perder o voo com apenas metade do cabelo escovado. Na área do subsolo, funciona um salão menor ainda, com 9m². Há 13 anos recebem comissárias de bordo e funcionárias do aeroporto, que têm desconto . Além desse serviço, a clientela pode fazer drenagem linfática, depilação e até limpeza de pele. Vânia Lima e a filha trabalham de segunda a sexta, das 10h às 20h, atendendo até 15 pessoas por dia. A entrada de passageiros também é permitida, mas a informação não chega aos andares superiores.

No salão de Ana Xavier, no primeiro piso, tripulantes pagam 25 reais pelo serviço de manicure

No salão de Ana Xavier, no primeiro piso, tripulantes pagam 25 reais pelo serviço de manicure

Até quanto você pagaria numa garrafinha de água mineral? Na unidade da Casa do Pão de Queijo em Congonhas, ela custa 6 reais. Os preços no aeroporto realmente são mais altos e a diferença acontece até em lojas franqueadas. O mesmo cookie que custa R$ 6,50 no Mr. Cheney de Congonhas saí por R$5,50 nos demais lugares. O preço da casquinha no McDonald’s do aeroporto é R$ 2,50, contra R$ 2 em outras lojas da rede. No Starbucks, o café Mocha Tall é R$ 11,50, R$1,60 a mais que na unidade da Alameda Santos. A explicação dos comerciantes está no alto custo do aluguel. A Infraero estipula o tipo de serviço para qual o espaço se destinará e determina um valor mínimo de aluguel. A partir de então, a empresa faz um leilão e vence quem fizer o maior lance.

De azulejos e paredes brancas já encardidas, a lanchonete Célia Café é um projeto do sindicato dos funcionários do aeroporto, o Assinfra. Funciona há 10 anos no subsolo. “Os restaurantes do subsolo costumam ser mais práticos e baratos”, diz uma comissária da TAM. “Prefiro evitar as grandes filas do saguão”. Uma garrafa de água mineral ali custa R$ 2,50 a menos que no saguão, enquanto o pão de queijo sai pelos mesmos R$ 5.

Por R$ 15 dá para engraxar os sapatos na charmosa “Engraxataria Aeroporto”. Com tinta, o preço sobe para R$ 20. São 12 funcionário que se revezam nas seis cadeiras. Como em todos os cantos de Congonhas, os funcionários dali já presenciaram cenas curiosas. “Um homem de bengala engraxava seu sapato calmamente quando percebeu que estava quase perdendo o voo. Ele se levantou e simplesmente saiu correndo sem a bengala. Ele não pareceu ter tantas dificuldades assim para andar”, diverte-se César dos Santos, engraxate em Congonhas há 18 anos.

Um dos segredos mais bem guardados do aeroporto é o restaurante Santa Luzia, que fica no subsolo. Esta dica me foi passada pelo Chico Prado, apresentador da Rádio Bandeirantes e ex-setorista de Congonhas. Quarta-feira passada, dia de feijoada, foi difícil arranjar um lugar vago no horário de almoço. O quilo sai por R$ 38,90. Tem sempre um bufê com saladas e frutas e outro com pratos quentes. Na quarta, o Santa Luzia oferecia frango grelhado, cupim, massa recheada, três tipos de arroz, dois tipos de feijão, couve e batata doce cozida (muito gostosa, por sinal). A fila do caixa costuma chegar até o elevador, a uns 10 metros de distância. O restaurante era administrado pela Infraero, mas tornou-se particular há quatro anos. Com serviço voltado para os tripulantes e funcionários do aeroporto, atende passageiros há apenas um ano. Funciona somente nos dias de semana, das 11h às 15h e das 17h30 às 20h. Uma dica: ao pegar o elevador do saguão principal, há um aviso no botão -1 – “Entrada apenas para funcionários”. Vá com fé: o acesso é permitido a todos.

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O restaurante Santa Luzia é um dos segredos mais bem guardados do aeroporto. Ao meio-dia, a fila já é assim

Outra surpresa do subsolo é a sala do curso de inglês ICAO – International Civil Aviation Organization. O curso é direcionado preferencialmente a pilotos. O carro-chefe é o módulo 4, chamado “Operacional”, que oferece o mínimo necessário para pilotos que farão voos domésticos. O teste foi instituído pela Organização Internacional da Aviação Civil. Para voos internacionais, há o módulo 5, também oferecido ali.

Em 2005, o Aeroporto de Congonhas ganhou um novo prédio garagem. Os 60.000 m² são administrados pela concessionária São Parking. São 3.414 vagas espalhadas por 5 andares do empreendimento. O preço é de 84 reais por 24 horas. Por dia, 3 mil veículos entram e saem do estacionamento. Um deles, porém, entrou lá em 2008 e nunca mais saiu. O cantor Belchior abandonou seu Sonata branco e nunca mais apareceu. Com informações vindas de diversos cantos do país, a TV Globo chegou a encontrá-lo numa pequena vila do Uruguai, mas ele não explicou direito o motivo do desaparecimento. Há quem diga que o motivo do sumiço teria sido dívidas. Em Congonhas, ele deve atualmente algo em torno de 186 mil reais. Funcionários não permitem mais que o veículo seja fotografado.

O zelador Irineu Bernardo da Silva ganhou o apelido de “Zé Congonhas”. Há 26 anos, ele usa o dia de folga para visitar o aeroporto e tirar fotos com celebridades. Durante uma época, ele chegou a levar o filho para facilitar a aproximação com os alvos. São tantas experiências que lançou por conta própria um livro chamado “Histórias de Zé Congonhas”. Nele, separa os artistas em duas listas principais: os mais legais e os mais chatos. O caçador de estrelas criou várias listas, como o “artista bomba” (aquele que explode ao ser abordado) e o “jatinho” (diz sempre que está atrasado para o voo). Zé Congonhas lembra que os dois primeiros fotografados foram Cláudia Raia e Tarcísio Meira.  Há três anos, Zé Congonhas criou um canal no YouTube. De uns tempos para cá, ele começou a vestir um terno vermelho e amarelo e, em vez de fotos, tenta entrevistar quem chega a São Paulo. O canal só conseguiu 35 inscritos por enquanto.

zé congonhas

Livro traz experiências vividas com artistas nos corredores de Congonhas

Embora sirva café da manhã, o forno da Pizza Hut já começa a trabalhar a todo vapor por volta das 9 horas. “Uma vez, eu estava chegando para trabalhar e um cliente implorou para eu assar uma pizza para ele”, conta Jéssica Macedo, funcionária da Pizza Hut há 5 anos e apenas há um nessa unidade. “Pedi alguns minutos e matei a vontade dele”. Detalhe: eram 4h40 da madrugada. O fast-food funciona das 7h às 23h e tem um faturamento médio de 24 mil reais por dia.

Quem adivinha qual é o remédio mais vendido na Drogaria São Carlos? “A disputa está entre o Dramin e o Plasil, mas por uma pura questão de gosto, já que os dois têm o mesmo efeito contra enjoo”, explica Adriano de Souza, que trabalha há 12 anos na farmácia, sete deles na unidade de Congonhas, localizada no subsolo. Ele atende uma média de 50 clientes por hora. Uma curiosidade é a placa que foi afixada na balança: “Proibido pesar malas”. “De tanto pesarem as malas conseguiram quebrar a balança”, bronqueia ele. “Tivemos que levar para consertar e resolvemos proibir para esse uso. No andar de cima, as companhias aéreas possuem balanças específicas para esse uso no check-in”.

O aviso da balança na farmácia é tão grande que quase tampa o mostrador com o peso

O aviso da balança na farmácia é tão grande que quase tampa o mostrador com o peso

Ainda sem data definida, os guichês da TAM no Aeroporto de Congonhas passarão por modificação. A empresa, que se fundiu à chilena Lan, passou a se chamar Latam. Irá trocar o vermelho pelo azul. As novidades prometem acelerar as vendas e a vida dos passageiros. Dentre as estratégias de marketing está o check-in realizado pelo tablet, enquanto os passageiros ficam na fila para despachar as bagagens. Os testes já estão sendo realizados no aeroporto.

A garantia dos direitos de pessoas portadoras de deficiência física é lei desde dezembro de 2015. A Infraero ampliou a acessibilidade do Aeroporto de Congonhas. A novidade são as mensagens do Sistema Informativo de Voos (SIV), traduzidas automaticamente para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Dessa forma, as trocas de portão e a situação dos voos agora são compreendidas por pessoas com deficiência auditiva. Funcionários do terminal participam, periodicamente, do curso de Libras. O embarque de pessoas com deficiência também é feito de forma diferenciada. Logo depois de passarem pelo raio-X, elas aguardam o voo na sala de prioridades ou num espaço específico no embarque. Todo percurso é feito com um acompanhante da companhia aérea. Embarcam e desembarcam, em média, 10 pessoas portadoras de deficiência por dia.

FLOR 4

Quer cena mais romântica que pessoas presenteando quem chega com um buquê de flores? A floricultura Esalflores atende duas pessoas por hora. As opções vão desde um botão de rosa até uma suntuosa orquídea, que vem dentro de um vaso para pendurar no teto, ao preço de 190 reais. Na sexta-feira da semana passada, um funcionário da limpeza encomendou um sapinho de pelúcia e gardênias brancas para sua ex-namorada, que trabalha na cafeteria Seleto, na tentativa de uma reconciliação. Ângela Maria Fontes fez uma surpresa para Claudia Giacon, sua namorada, e a presenteou com uma rosa. As duas vieram de Santa Catarina para fazer uma visita gastronômica a São Paulo. Na área de desembarque também é possível comprar buquês da Esalflores numa vending machine. Os valores vão de R8,90 à R$34,00.

E nós terminamos essa reportagem com flores justamente para homenagear nosso aeroporto oitentão.

(Com reportagem e fotos de Gabrielli Menezes)

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