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A chuvinha e a ventania da tarde de domingo em São Paulo causaram um verdadeiro apagão nos semáforos de Perdizes. Ontem à noite, com o temporal, a coisa foi ainda pior. A cena vem se tornando cada vez mais corriqueira para quem vive ou transita pelo bairro (muitos outros devem ter passado pelo mesmo problema). “Perco 40% do meu tempo por causa desses faróis quebrados”, reclama o taxista Miguel Lima, que trabalha na região. “Todo dia encontro um assim pelo caminho”. Em São Paulo, os semáforos não possuem nobreak. Quando acaba a luz, eles também se apagam. 

Na semana passada, o São Paulo para Curiosos flagrou um agente de trânsito tentando contornar o nó gerado pelo semáforo quebrado no cruzamento da Avenida Pompeia e da Rua Venâncio Aires. “A região fica um inferno”, reclamava o marronzinho. “Alguém tem que vir arrumar. Falei com o supervisor de controle semafórico, mas você sabe como são as coisas, né?”.  Ô, e como sabemos!

Situação típica: farol quebrado, CET e trânsito

Semáforo quebrado na Venâncio Aires com a Pompeia causa nó no trânsito e irrita até o marronzinho

Segundo especialistas, a situação do bairro deve piorar nos próximos meses, a começar com a inauguração do Allianz Parque. Há 5 meses, como contrapartida pela construção do novo estádio do Palmeiras, a construtora W/Torre assinou a Certidão de Diretrizes 018/10, elaborada pela CET. A W/Torre bancou a instalação de 68 semáforos na região – muito deles estão desligados e só devem começar a operar quando a arena para 43 000 torcedores estiver pronta.  “A região já é ruim e, com o aumento do polo gerador de tráfego, ninguém vai andar”, aposta o engenheiro de tráfego Humberto Pullin, que trabalhou na CET entre 1977 e 1987.  “O trânsito é tão intenso que já estão se formando congestionamentos dentro das garagens dos prédios.”

“Polos geradores de tráfego” são os impactos que empreendimentos de grande porte causam na região onde estão sendo construídos. Baseados nos estudos dos impactos, a CET elabora a Certidão de Diretrizes. Dentro dessas diretrizes, está um dos faróis desligados, localizado no cruzamento da Avenida Sumaré com a Rua Apinajés. “Foi colocado para travessia de pedestre”, diz o engenheiro de tráfego Horácio Figueira. “É suicídio tentar atravessar ali”.

Até o Google Maps registrou o "farol desligado" da R. Apinajés

Semáforo da Sumaré com a Apinajés foi um dos 68 colocados pela Certidão de Diretrizes da construção do novo estádio do Palmeiras (imagem: Google Maps)

Qual é o critério para a instalação de um novo semáforo? Humberto Pullin explica que isso depende do número de carros que passa pelo local por hora. Até 600 veículos, existe a placa ‘Pare’. Quando chega a 800 carros,  a recomendação é que seja colocada uma mini-rotatória. “Se passar de 1200 veículos, aí entra o semáforo”, explica Pullin.  “O semáforo precisa trazer fluidez e segurança ao trânsito, mas há regiões em que o efeito é inverso”. A lenda popular “quanto mais farol, mais tráfego”, para Humberto Pullin, é uma falácia. “Em Brasília e na Avenida 23 de Março não há semáforos, mas o tráfego é intenso porque atingiu a capacidade de carros”, afirma o engenheiro.

O drama de Perdizes, Pompeia, Vila Romana, Lapa e Barra Funda só está começando. Outra obra que já está aterrorizando o trânsito da região é o bairro Jardim dos Perdizes, considerado “o maior projeto imobiliário de São Paulo” pela revista Exame. O terreno de 250.000m², no cruzamento das avenidas Marquês de São Vicente e Nicolas Boer, custou 133 milhões de reais. A construção já está em pleno vapor. Serão 25 edifícios residencias (cada um deles com 25 pavimentos), 2 torres comerciais, 1 hotel e 1 shopping. Qual é o impacto que o empreendimento causará na região? A construtora Tecnisa diz que não sabe informar.  Uma reportagem do Jornal da Cultura (vale a pena ver!) mostrou que a própria construtora calculou que o novo bairro irá atrair de 10 mil a 12 mil pessoas, entre moradores e trabalhadores, e 5 mil carros. Segundo comentário no blog “Cidade Democrática”, o Jardim das Perdizes “não realizou o devido estudo de impacto exigido numa grande obra, usando um artifício de dividir o solo em lotes menores, em tamanhos que a lei não exige tal estudo”. Na reportagem da TV Cultura, Fábio Villas Bôas, diretor executivo da Tecnisa, confirmou essa artimanha, digo, informação. Dias piores virão…

O terreno onde está sendo construído o bairro "Jardim das Perdizes"

O terreno onde está sendo construído o bairro “Jardim das Perdizes”

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