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Existe um pedaço do Leste Europeu em São Paulo. A Vila Zelina, bairro próximo ao Cemitério da Vila Alpina, na Zona Leste, completa 85 anos hoje, dia 27 de outubro. Durante a semana, os moradores comemoraram com quermesses, apresentações folclóricas, muita comida típica e até um concurso, que elegeu Fernanda Paulin Martin como “Miss Vila Zelina 2012”.

SAO PAULO 11/O3/2005 GERAL LITUANOS IMIGRANTES LITUANOS NA VILA ZELINA, ONDE MORAM ESSES IMIGRANTES. MULHERES PREPARANDO COMIDA TIPICA NA IGREJA DE SAO JOSE, QUE ESTA SENDO PREPARADA PARA A FESTA. NA FOTO A SRA SEVERA PETRUOKA DE 82 ANOS.  FOTO AGLIBERTO

Até 1927, a região era chamada de Baixos do Embaúba. As terras pertenciam ao comerciante Cláudio Monteiro Soares Filho. No dia 27 de outubro daquele ano, Soares Filho delegou ao recém-chegado imigrante russo Carlos Corkisco a tarefa de lotear e vender terrenos. Fluente em idiomas como russo, lituano e polonês, o comerciante foi até a Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca, para convencer os novos compatriotas a habitar o novo bairro.

Os imigrantes vindos do leste europeu passaram a se concentrar na região, principalmente na época da Segunda Guerra Mundial. O resultado é que, como afirmam com orgulho os lituanos da Zona Leste, a Vila Zelina concentra a segunda maior colônia lituana do mundo – perdendo apenas para Chicago, nos Estados Unidos.

O centro do bairro é a Praça República Lituana, na qual fica a paróquia de São José de Vila Zelina. A igreja católica, construída pelos próprios imigrantes em um terreno doado por Soares Filho, foi fundada em 1936. Até hoje, há uma missa especial em lituano todo domingo, às 11h. Como, atualmente, não há mais padres que saibam celebrar a missa no idioma, foi encontrada uma solução curiosa. O sacerdote diz sua parte em português, enquanto os fiéis respondem em lituano. As músicas também são cantadas em língua estrangeira e podem ser acompanhadas em um folheto especial que é distribuído nas cerimônias. “Até quando Dom Edmar Peron, bispo da região, vem celebrar missas comemorativas aqui, a tradição é mantida”, diz Sandra Mikalauskas, neta de lituanos, sempre  morou no bairro.

Sandra é responsável pelo grupo de dança folclórica Rambynas, criado em 1997. O Rambynas participou de festivais internacionais de dança nos Estados Unidos e na própria Lituânia. “É uma tradição desses países fazer um festival nacional de grupos folclóricos a cada quatro anos”, conta. “Mas os eventos aconteceram nos Estados Unidos enquanto a Lituânia estava ocupada.” Em 1998, já com a independência consolidada, o país voltou a fazer festivais.

As comemorações pelos 85 anos da Vila Zelina prometem se estender. Demetrio Dimitrov, descendente de búlgaros, russos e ucranianos, é vice-presidente da Associação de Moradores e Comerciantes do Bairro de Vila Zelina (Amoviza). Ele conta que as feiras de cultura tradicional e artesanato  passarão a ser mensais no ano que vem. “Queremos mostrar a cultura do bairro para mais pessoas”, diz.

Enquanto o público espera pelas quermesses mensais, o Blog do Curiocidade preparou um roteiro de endereços para quem quiser conhecer a cultura do leste europeu enquanto passeia pela Vila Zelina:

Bar do Vito
Foi fundado em 1942 por Vitaustas Tunnelis, o Vito. Desde 2005, pertence a Aurélio José Gringonis. Além de cervejas lituanas, a casa serve quitutes como a koseliena (R$ 13), geleia à base de carne feita pela própria mãe de Gringonis e consumida com pão. Av. Zelina, 851, 2341-6994

Delícias Mil
Alana Trinkunas Dzigan, a proprietária, é filha de lituanos. Na rotisserie, ela prepara kugelis (R$ 30, o quilo), torta de batata, bacon e cebola, prato bastante típico do país. A própria Alana fabrica krupnikas, licor de mel tradicional da Lituânia. R. Monsenhor Pio Ragazinkas, 17, 2341-3371

Gandras Alus
Neto de lituanos, Rogério Sventkauskas produz cervejas artesanais ao estilo baltic porter, comum em países como Lituânia, Estônia e Rússia. Também elabora uma bebida bem diferente: a Duonos Gira, conhecida pelos russos como Kvass. Feita a partir de pão preto fermentado e água, ela tem teor alcoólico entre 0,5 e 2%.
gandras.alus@yahoo.com.br

Grupo Volga
Fundado em 1981, reúne crianças e adolescentes de famílias russas. Participam de eventos da comunidade, como jantares beneficentes, fazendo apresentações de coral e danças folclóricas e coral típicos da Rússia. 2341-4657 e www.grupovolga.com.br

Grupo Rambynas
Foi criado por Sandra Mikalauskas, neta de lituanos, em 1997 e já se apresentou em eventos internacionais – até mesmo na Lituânia. É procurado por jovens descendentes deste povo, já que seu objetivo é difundir as danças folclóricas do Leste Europeu. 2341-3542 e rambynas@bol.com.br

Irene Czuczman
Filha de ucranianos, ela faz sob encomenda o varenyky, quitute semelhante a um pastel, com massa de batata e recheio de queijo. O prato vem congelado para o cliente prepará-lo em casa. Cada pacote de um quilo (R$ 25) tem cerca de 20 unidades. 2216-6945

Janete Zizas
A artesã dá aulas de pintura de ovos de páscoa lituanos, que são ovos de galinha tingidos usando cera de abelha. O pincel é um pequeno alfinete pregado em um lápis. Além de cursos, ela vende objetos decorativos e bonecas com roupas típicas do Leste Europeu. R. Barão do Piraí, 240, 2341-0840

Paróquia São José de Vila Zelina
Construída pela comunidade católica do bairro em 1936. Às 11h da manhã de domingo, é realizada tradicionalmente uma missa com música e folhetos em lituano. Pça. República Lituana, s/nº

Santa Coxinha
Pelo nome, o lugar não parece ser dedicado aos descendentes de imigrantes. E não é mesmo. Mas o cardápio da loja tem dois itens em homenagem ao bairro. A coxinha Zelina (R$ 5,40) é feita de carne moída e pepino azedo, enquanto o sanduíche Big Zelina (R$ 14,90) leva dois hambúrgueres, queijo e pepino azedo. Pça. República Lituana, 73, 2345-4249

Slavian Tours
Agência de turismo carioca especializada em Leste Europeu. A franquia na Vila Zelina é comandada por Simone Polgrymas, descendente de russos, e está no bairro há três anos. O pacote mais vendido é o que contempla Moscou e São Petersburgo, mas há diversas opções de roteiros nos Países Bálticos, Polônia e Ucrânia. R. das Giestas, 966, 2341-6965.

(Com colaboração de Míriam Castro e foto de Agliberto Lima/AE)

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