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A sala, com poucos móveis e paredes muito brancas, dá ao apartamento no bairro de Santa Cecília uma aparência maior do que ele realmente é. A escrivaninha também abriga menos objetos do que comportaria. Em cima dela, apenas um computador, um caderno rabiscado e “Bufo e Spallanzani”, de Rubem Fonseca. A posição estratégica da estação de trabalho, grudada à janela, é o único indício de que o ambiente seja frequentado por um fumante – embora não haja nenhum cinzeiro à vista. Na parede oposta, uma estante lotada de livros. Saltam aos olhos palavras como “crime”, “Direito Penal” e “polícia”. Na frente do sofá, uma TV desligada e um videogame fora da tomada. Foi aí que Roger Franchini se enfurnou durante os dois últimos meses para escrever “Amor esquartejado”, que será lançado hoje, 3a-feira (6/11), na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista. “TV e videogame, só em férias literárias”, confessa. “Em compensação, quando estou escrevendo, chego a fumar dois maços por dia”. Só na produção do novo romance, ele calcula ter consumido 2.400 cigarros.

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Com 34 anos, formado em Direito e levando na bagagem uma experiência como policial investigativo, o escritor de “Richthofen – o Assassinato dos Pais de Suzane” se prepara para o lançamento de seu quarto livro. Apesar do nome, “Amor esquartejado” não é uma obra sobre o caso Yoki. O assassinato de Marcos Matsunaga, diretor-executivo da gigante do setor alimentício, é só o pano de fundo para uma discussão muito mais profunda: o problema político-estrutural das polícias do estado de São Paulo. “Pode anotar isso aí: a culpa é dos governantes irresponsáveis que não assumem que há uma guerra entre a Polícia Militar e a Polícia Civil”.

Roger virou policial por impulso. Cursava Direito em Franca, no interior de São Paulo, quando surgiu a vaga concursada. Fez a prova e passou. “Quando percebi, estava andando armado”, lembra. O sentimento nostálgico pelo emprego se restringe aos estudos de casos, aos interrogatórios investigativos e às amizades que cultivou. Expor o motivo que fez Roger deixar o cargo público três anos depois do ingresso o desconcerta: “Se você não tiver uma força política dentro do departamento, você não vai a lugar nenhum”. Decidido a não fazer parte desse esquema e empenhado em divulgar o que presenciou dentro da Polícia (“por que vocês da imprensa não falam sobre isso?” – questiona), Roger Franchini virou advogado (por necessidade) e escritor (por opção). Compilou, por conta própria, o material de um blog onde relatava o que acontecia nos bastidores do departamento e imprimiu 100 cópias, sob o título de “Ponto Quarenta”. O nome é uma referência à pistola utilizada pela PM de São Paulo desde o ano passado – a de calibre 40, que substituiu a tradicional 38. Em três meses, a obra estava esgotada. Em um ano e meio, Roger imprimiu outras cinco tiragens, chegando à marca dos 600 livros vendidos. “Hoje esse livro é raro – não sobrou uma cópia nem para mim”, lamenta, um tanto orgulhoso.

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O sucesso o levou a assinar contrato com a Editora Planeta para a produção de uma série de romances policiais, baseados em casos de repercussão nacional. A empreitada fez sucesso: com dois livros publicados, já chegou às 11 mil cópias vendidas. O primeiro deles foi “Toupeira – A História do Assalto ao Banco Central”, caso que o fascina. “Parece coisa de cinema: os caras roubaram toda essa grana sem derramar uma gota de sangue”, pensa alto enquanto vasculha uma pasta de seu computador em busca da planta do túnel construído pela quadrilha. Assim que a encontra, a surpresa da descoberta velha: “Tinha até ar condicionado!”. Quando o assunto é desviado para o caso Richthofen, o fascínio é tanto que o entrevistado vira entrevistador: “Menina linda a Suzane, não? Você não se identifica com os personagens deste caso? Você tem estômago forte?”. Roger Franchini tem. Em outra pasta de seu computador, há uma série nauseante das últimas fotos tiradas do casal Richthofen. Para ele, um álbum de retratos; para os leigos, um filme de terror. Roger tem os boletins de ocorrência e autos criminais completos dos casos sobre os quais escreve. Estão todos escaneados, guardados no computador. Segundo ele, qualquer pessoa que se dirija ao Fórum Municipal pode requerer esse material. No entanto, apesar de públicos, os documentos são mais acessíveis aos advogados.

Quem o apresentou aos romances policiais e o ensinou a disciplina do ato de escrever foi a escritora Olívia Maia, com quem o ex-investigador foi casado durante cinco anos. O caderninho não fica ao lado do computador por acaso: todas as ideias  são primeiramente registradas lá. Metódico e ansioso, Roger Franchini impõe metas a si mesmo. “Quando estou trabalhando, só me lembro de comer quando a cabeça começa a doer”, justifica. Escrever “Amor esquartejado” lhe custou nove quilos, cuja falta é claramente percebida nas calças largas com cinto apertado. Antes de começar a obra, ele pesava 75 quilos; hoje, está com 66.

Seu trabalho é único no Brasil. Diferentemente da gama atual de escritores policiais, Roger faz questão de cutucar o formigueiro. No livro sobre o caso Richthofen, ele cita o envolvimento do patriarca da família com lavagem de dinheiro nas obras do Rodoanel, provado com documentos de um processo aberto contra o personagem. Quanto às “declarações bombásticas” que faz no livro novo, mascaradas pela história do assassinato do executivo da Yoki, a polêmica é mais ampla: “A polícia não protege a população; ela serve para blindar o grupo político que está no poder no momento histórico”, afirma, sem meias palavras.  Apesar de parecer ter uma coragem de ferro, admite: “É claro que eu tenho medo de sofrer ameaças, mas alguém precisa falar”.

(com colaboração de Júlia Bezerra e fotos de divulgação)

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