Share Button

Já são 4 milhões de refugiados sírios espalhados pelo mundo em cinco anos de guerra civil. Cerca de 1.600 vieram para o Brasil. Essa reportagem irá contar a história de cinco deles – Saleem Zafary, Tammam Almodallaleh, Tarik Balbke, Khaldon Mourad e Ahmad Saeed -, que se instalaram na Rua Cônego Eugênio Leite, quase esquina com a Arthur de Azevedo, em Pinheiros, e abriram uma casa de comidinhas árabes. A Damascus tem um pequeno balcão, uma vitrine e três banquinhos. Vamos às apresentações. Saleem, 42 anos, é o mais velho da turma. Trouxe a mulher e as duas filhas. A mulher passa a maior parte do tempo em casa e só sai usando burca. As filhas ainda não estão na escola. Ele recebe os clientes sempre com a mesma frase: “Eu não falo português”.

11759383_874296752664338_2069286527_n

Saleem, Tarik, Tammam, Ahmad e Khaldon: sírios abriram casa no bairro de Pinheiros há três meses

Tammam, 31 anos, é o único que veio de Hama, cidade ao norte de Damasco. Trabalhava lá como médico veterinário. Os outros quatro viviam na capital. “Quando cheguei, não encontrei ninguém que falasse inglês no aeroporto”, conta Tammam. “O começo foi bem difícil. Queria encontrar outros sírios que já estivessem em São Paulo”.  Algum tempo depois, ele realizou o desejo e conheceu Ahmad, Tarik e Khaldon, que vieram juntos no mesmo voo para o Brasil, em agosto do ano passado. Há quatro meses, quando os três resolveram abrir a lanchonete com o dinheiro trazido da Síria, convidaram Tammam para trabalhar na Damascus. Tammam conheceu o pai de Khaldon no embarque em Damasco.

Ahmad, 25 anos, é quem tem mais facilidade com o português. Na Síria, ele era funcionário de uma fábrica de panelas. Conheceu a mulher, uma amazonense chamada Miriam, no elevador do seu primeiro endereço na cidade, no bairro da Liberdade.  “Perguntei se ela queria me ensinar português”, explica. “No começo, ela não acreditou muito na minha história. Quando voltamos a nos encontrar, alguns dias depois, ela percebeu que meu pedido era de verdade”. Todos os dias, Miriam, funcionária da Nestlé, escrevia algumas palavras num caderninho e entregava à Ahmad para que ele pudesse treinar. A lição de casa funcionou. O rapaz entende perfeitamente o português. Ajudou também o fato de ele ter se casado com a “professora” depois de um namoro de 3 meses.

Quando não há clientes, Saleem abre um notebook e fica pesquisando palavras, como “pão”, “cachorro”, “obrigada”, “rua” e “olá”, em português no Google Tradutor. “Saleem quer aprender a falar o mais rápido possível, mas as aulas são caras”, reclama Ahmad. ” O que confunde a gente é esse ‘ão’ de vocês. E, quando vocês falam ‘trem’, o ‘m’ tem som de ‘n’”.

11720685_873295186097828_255947697_n

A fachada da Damascus: pequeno salão tem apenas três banquetas

Khaldon, 30 anos, era contador na Síria. Ele cuida da parte administrativa da Damascus. Trouxe a mulher, os pais e as duas irmãs. “Eu tenho sorte de estar com toda a família aqui”, comemora. Uma das irmãs de Khaldon é casada com Saleem, que trabalhava como caixa numa loja que vendia café e frutas secas. O imóvel foi alugado em nome de Khaldon. Ele não revela o valor, mas conta que teve que fazer, por falta de fiador, um seguro-fiança de três meses de aluguel. Ele é o único que não fica efetivamente na lanchonete. Ahmad é o homem do caixa e faz as vezes de garçom. Saleem e Tammam embalam os produtos e também ajudam  a servir.

Tarik, 22 anos, é o caçula da turma.  É ele quem prepara os doces e os salgados vendidos na Damascus. Ele trabalhava como padeiro na Síria e fazia bicos também como técnico de informática. Saem do forno 20 esfihas por dia, metade de carne e metade de queijo (R$ 3). Elas têm menos recheios que as versões nacionais e são aquecidas no microondas. Estão longe de ser um primor. Mas o que tem feito mais sucesso entre a clientela por enquanto são os doces, especialmente o mamul, oferecido com sete recheios diferentes (nozes, caju, tâmara, pistache, damasco, goiaba e pêssego). O damasco é importado da Síria, assim como o pistache. Os preços variam entre 2 e 2,50 reais. Sucesso também fazem os doces folheados, vendidos por quilo (45 a 60 reais). São produzidos diariamente de 5 a 7 quilos de doces. Nesses 11 meses morando em São Paulo, Tarik diz ter se apaixonado pelo Corinthians, embora estivesse usando um boné do São Paulo num dos dias de visita da reportagem.

Por enquanto a loja só vende esfirras de carne (à  direita) e de queijo (à esquerda), mas pretende variar nos sabores.

Diariamente saem do forno 20 esfihas, metade de queijo (esquerda) e metade de carne. Cada uma custa 3 reais

À esquerda, o folheado de nozes com caju (R$6,00 cada 100g). À direita, um dos mais pedidos, o folheado de castanhas (R$4,00 a unidade).

São produzidos entre 5 e 7 quilos de doces por dia, incluindo os folheados

Por que os cinco escolheram o Brasil?  “Para conseguir o visto foi bastante fácil”, explica Tarik. A legislação brasileira recebe refugiados em caso de questões humanitárias como perseguições étnicas e conflitos armados. A lei dos refugiados garante aos estrangeiros documentos como carteira de identidade, CPF e carteira de trabalho. A lei só não prevê ajuda financeira.

A mulher de Tammam, Tasneem Ahmad Alkendi, tem 17 anos e mora no Cairo, Egito. Ele precisa juntar dinheiro para trazê-la. Ahmad e Tarik também fazem planos para trazer  familiares que deixaram na Síria. “O mais difícil mesmo é saber que eu não posso voltar”, afirma Ahmad. “Com esse regime, se eu voltar, vou morrer”. Embora a casa tenha apenas 3 meses, os sócios comemoram as boas vendas. E também as perspectivas de um aumento de clientela.”Muita gente passa, dá uma olhada, mas ainda não entra”, confirma Ahmad. “É tudo uma questão de tempo até se acostumarem com a nossa presença aqui”.

Serviço:
Damascus
Rua Cônego Eugênio Leite, 764, Pinheiros
Tel.: 3064-5314
Seg. a sáb., 10h/20h; dom. 10h/17h

Share Button