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O voo comercial da British Airways, que desembarcou no Aeroporto de Guarulhos na manhã do dia 22 de dezembro do ano passado, trazia no compartimento de carga dois passageiros muito especiais. Os ursos polares Aurora e Peregrino estavam chegando como principais atrações do novo espaço do Aquário de São Paulo, que será inaugurado amanhã, dia 16. O local cresceu de 9 mil para 15 mil metros quadrados e também recebeu cangurus, pítons, raposas voadoras, suricatos e lêmures. O coala dará o ar da graça no mês que vem. Quem acompanhou os ursos nesta jornada foi Alexander Malev, 58 anos, um dos maiores especialistas no trato com esse tipo de animal. Malev saiu com o casal de ursos do Zoológico de Kazan, a 810 km de Moscou, numa viagem de 20 horas. Ele explica que os animais estavam em caixas climatizadas. Lá ficaram esperando por uma noite até entrarem num voo até Londres, que durou outras quatro horas e meia. Depois foram mais 12 horas de Londres a São Paulo e uma hora no caminhão no trajeto de Guarulhos até o aquário, no bairro do Ipiranga. “Quando a caixa foi aberta, eles mergulharam na piscina direto”, lembra o médico veterinário Ivan Ezhov, especialista em animais vertebrados, que trabalha no Zoológico de Kazan há 6 anos e que também veio para o Brasil com os ursos. Ivan sabe um pouco de espanhol e fez o papel de intérprete de Malev em algumas ocasiões.

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Os especialistas russos Ivan Ezhov e Alexander Malev, observados por Aurora

Os dois voltaram esta semana para São Paulo e participaram do coquetel oferecido pelo Aquário de São Paulo para convidados na noite de ontem. Depois da inauguração para o público, eles voltarão para a Rússia. Passarão a monitorar os bichos pela internet. Malev começou seus estudos primeiro com os ursos pardos, há 33 anos. Mas se encantou mesmo com os ursos polares nas três viagens que fez ao Ártico. Chegou até a entrar numa toca de ursos. “Eu tive medo no começo”, confessa. “Mas pensei ‘não tem saída, o Ártico fica longe, talvez não terei outra oportunidade para encarar esse desafio’”.

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O visitante também pode ir até o andar subterrâneo do Aquário para observar o tanque dos ursos (foto: Ivan Ezhov)

A negociação do Aquário de São Paulo com o zoológico da Rússia começou em 2013. “Fomos procurá-los porque achamos que seria importante ter no Brasil um animal que representasse a preocupação com o aquecimento global”, explica Anael Fahel, proprietário do aquário. “Os ursos polares se tornaram símbolo da preservação do meio-ambiente e achamos que tê-los aqui seria uma forma de entretenimento misturada com educação ambiental”. Malev veio pela primeira vez a São Paulo  em novembro do ano passado. Sua missão era checar as instalações que o aquário ofereceria. “A imagem que se tem do Brasil é de um calor muito forte todos os dias do ano”, diz Alexander. “Estávamos com receio de não ser um clima agradável para os ursos polares. Mas, chegando aqui, vimos que a realidade é diferente. As condições são melhores que em Kazan”. Malev aproveitou o tempo para fazer palestras de orientação para os biólogos do aquário.

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Peregrino tem 5 anos e pesa 460kg (Foto: Tatiana Camilo/Aquário de São Paulo)

Todos os animais que chegam ao Aquário de São Paulo tradicionalmente são batizados aqui, mas, com os ursos Aurora e Peregrino, as coisas foram diferentes. “Os nomes foram escolhidos por uma criança em um concurso na Rússia”, conta Malev. “Na hora, eu achei estranho batizar um urso polar de ‘Peregrino’. O urso polar não tem o costume de viajar, ele fica sempre no seu habitat. Só que, depois de tantas horas de viagem da Rússia para São Paulo, cheguei à conclusão de que não havia nome melhor!”

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O espaço de 1.500 metros quadrados conta com uma grande piscina na temperatura média de 15 graus (Foto: Tatiana Camilo /Aquário de São Paulo)

O macho Peregrino, de 5 anos, pesa aproximadamente 460 kg, o dobro da fêmea Aurora, de 4 anos. Como Aurora vem ganhando peso, há suspeita de que ela já possa estar grávida. “Já imaginou? Será o primeiro urso polar nascido em cativeiro na América Latina”, torce Anael Fahel. Os dois dividem um espaço de 1.500 metros quadrados, que possui temperatura média de 15 graus (a temperatura podendo baixar até 5 graus negativos). A cenografia incluiu um pedaço de submarino no cenário. Malev explica que, apesar da aparência dócil, os ursos são animais selvagens perigosos. Portanto, todo trabalho dos funcionários do aquário deverá ser feito por trás de um portão. Como costumam se alimentar de carne de foca, a comida precisou ser adaptada. Além de frutas e legumes, Peregrino se alimenta de sardinha e Aurora, de salmão. Outra curiosidade é que a fêmea retira todos os caroços da melancia antes de comer. Os dois adoram também sorvete. Ivan explica que os ursos podem comer qualquer tipo de sorvete, mas a preferência é por aqueles com menos corantes e mais naturais. “A equipe oferece o sorvete de vez em quando como forma de parabenizá-los e agradá-los”, conta Malev. “Quando acaba, eles ficam gritando, pedindo mais!”.

A vida média de um urso polar é de 30 anos. Eles costumam fazer três refeições ao dia. E uma boa notícia aos visitantes: “Os ursos são muito ativos, costumam andar por aproximadamente 1 000 quilômetros no Ártico, em busca de comida”, explica Malev. “Quem vier ao aquário, verá sempre Aurora e Peregrino em atividade, principalmente brincando. Até trouxemos uma bola amarela junto com Peregrino. É um jeito também de deixar uma lembrança minha com ele”.

Atualização em 29/05/2015:  Colocada no ar em 25 de maio, a página Free Aurora Pilgrim abriu fogo contra o Aquário de São Paulo. Há fotos que mostram que os dois ursos polares vieram em caixas comuns, e não em compartimentos refrigerados, como divulgado pela instituição. Os ursos teriam vindo da cidade de Izhevsk, capital da Udmúrtia, onde viviam desde 2011, e não em Khazam.  De acordo com outras fotos publicadas na página, os ursos viveriam em condições melhores das oferecidas hoje em São Paulo.

(Com reportagem de Beatriz Duarte)

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