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Inspirado em uma tradição centenária, Renato Moikano se dedica há cinco anos a ser um dos poucos expoentes das cigar box guitars no Brasil. A tradução é literal: são guitarras feitas com caixas de charuto. Sempre charutos cubanos. “Apesar de ter o nome ‘guitarra’, ela é um instrumento diferente”, explica o músico, que largou o jornalismo para se dedicar à fabricação de instrumentos musicais. Em 2014, ele abriu a Major Tune Guitar, luthieria que fica no bairro de Pinheiros. “Desde o século XIX, os americanos já usam esse instrumento”, ensina Moikano. “Na Grande Depressão de 1932, elas se tornaram muito populares porque os músicos não tinham dinheiro para comprar guitarras de verdade, por isso faziam com as caixas de charuto cubano”, acrescenta.

Renato Moikano constrói guitarras a partir de caixas de charuto

O processo, segundo ele, é simples – e demorado. Leva cerca de uma semana se receber a exclusividade do luthier que fabrica ainda instrumentos, digamos, mais convencionais: “Tenho amigos que me fornecem as caixas. Muitas vezes são pessoas que fumam e não sabem o que fazer com elas. Faço um revestimento parcial ou total com uma madeira mais densa”, conta. As demais etapas do processo se assemelham à concepção de uma guitarra comum. Segundo Moikano, o Brasil entrou na rota da cigar box guitar apenas em 2003, já como algo cult.

O público em geral ainda estranha um pouco a ideia: “Quem vem da cultura do blues já conhece, mas o resto ainda fica curioso”, confirma ele. Como o instrumento é bastante peculiar, Moikano incentiva os compradores – são em média de cinco a seis por ano – a personalizarem as peças. Por isso, não existe um preço bem definido. Dificilmente, no entanto, uma dessas guitarras irá sair por menos de 1.500 reais. “Deixo sempre uma pronta para aqueles que precisam com mais urgência”, previne-se.

Cigar box guitars: instrumento musical feito com emblagem de charuto cubano

Moikano conta que não há muita diferença entre tocar a cigar box guitar e uma guitarra comum: “A escala das cordas é a mesma”, explica. “Qualquer professor de guitarra pode ensinar. Mas o som é totalmente diferente. As caixas de charuto cubanas são feitas à mão, então você nunca vai ter duas guitarras iguais”. Ele chama atenção para a necessidade de tomar um cuidado ainda maior com o instrumento: “Qualquer pancada ou batida pode estragar a madeira e aí o custo para os reparos é quase igual ao de uma nova”.

Duca Belintani, um dos seguidores do blues em São Paulo, se apresenta com a cigar box guitar de Renato Moikano

Mas, afinal de contas, por que caixas de charuto? “Hoje em dia usamos as de charuto porque são tradição e porque as próprias caixas são tradicionais”, simplifica. Ele costuma trabalhar com as embalagens de Montecristo e de Partagas, duas das marcas cubanas mais famosas no mercado: “Só  não gosto de mexer muito com as caixas da Cohiba”, admite.

Em tempo: o nome do cachorro de Moikano é Fidel.

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