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A visita ao Mirante do Prédio do Banespa, no centro, é um dos passeios mais frustrantes que já fiz. Na última sexta-feira, depois de 1 hora e 50 minutos de espera, pude ficar um pouco mais de 3 minutos no mirante. Saí de lá com a sensação de que a atração turística é um transtorno na vida do Santander, banco que assumiu o comando do Banespa no ano de 2000. No longo tempo de espera, fiquei até imaginando a diretoria de marketing do banco amaldiçoando o passeio todo final de ano. Afinal, eles poderiam gastar toda essa energia apenas em eventos muito mais “charmosos”, como a Copa Libertadores ou a Fórmula 1. Alguém vai até me recriminar: é de graça e ainda reclama? Sim. O que poderia ser uma excelente ação de marketing do banco acaba tendo o efeito contrário. E não é só pelo pouquíssimo tempo que se tem para admirar a cidade lá de cima. É pelo conjunto da obra. Diria que é pelo que poderia ser feito – com um pouco de empenho e criatividade. São Paulo tem carência de mirantes. Outros dois edifícios oferecem essa vista do alto: o Itália e o Martinelli. Daí a importância que cuidar bem desse pequeno patrimônio. Como a missão do banco diz que o Santander “busca constantemente melhorar a qualidade de TUDO o que faz”‘, resolvi colaborar.

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Ao chegar à Rua João Brícola, bem na esquina com a Praça Antônio Prado, o visitante precisa entrar na primeira fila, que é a do cadastro. Todos os visitantes devem mostrar um documento de identidade com foto. Há uma única funcionária para fazer o cadastro e ainda cuidar da chapelaria (é proibido subir com mochilas).  Levei 50 minutos nessa primeira triagem. Ao fazer o cadastro, o visitante recebe um cartão com recomendações sobre o passeio. Esse cartão vira uma espécie de crachá para entrar numa segunda fila, que leva ao primeiro elevador. Mais 45 minutos. Como não há senhas numeradas, o visitante que estiver com o cartão pode colocar mais gente na fila sem ter que passar pela triagem. Minha primeira dúvida: por que não permitir o cadastro pela internet? Bastaria checar o cadastro (impresso em casa) com o documento de identidade.  Outra ideia muito simples: daria para distribuir senhas com o horário da visita. Nos períodos de maior movimento, por que não agendar visitas a cada 15 ou 20 minutos? Em vez de ficar mais 45 minutos na fila, os incautos visitantes poderiam gastar esse tempo numa visita ao Museu Santander Banespa (aliás, ninguém diz se o museu existe, se ele está funcionando).  Tudo questão de organização e logística. Alguém no Santander deve entender disso.

Tempo ocioso, como se sabe, é um problema. Deu tempo de escrever um jogo dos sete erros no bloco de notas do celular:

1. Não há nenhuma informação sobre o passeio no saguão. Apenas uma placa do Santander dá as boas vindas em seis línguas. Nada mais. O segurança não falava uma única palavra em inglês. Os turistas estrangeiros – e, acredite, são muitos! – procuravam uma alma caridosa que pudesse dizer onde ficava o toalete. Ah, sobre isso, vá para o próximo item.

2. Não há banheiros disponíveis no térreo, embora o tempo de espera possa chegar a duas horas durante as férias. Banheiro só na primeira parada do elevador, no 26º andar. Conhecedores das longas filas, vendedores de água faturam um bom dinheiro na porta do banco.

3. Banco gosta de fila… O Santander não é diferente. Mas não há nada para entreter os visitantes nas duas enfadonhas filas. Por que não colocar televisores, painéis ou totens com um pouco da história do prédio?  Daria para contar, por exemplo, curiosidades do lindo painel do saguão ou do esplendoroso lustre. Nenhuma informação. Havia apenas uma maquete e um cofre do século 1882. Muito pouco. Aliás, Santander, quem foi Altino Arantes, que dá nome ao edifício de 35 andares e 161,22 metros?

4. A atração turística simplesmente não funciona nos finais de semana e nos feriados. No mundo inteiro, atrações turísticas fecham (quando fecham) uma dia por semana. Já o nosso mirante faz expediente bancário. Só de segunda a sexta, das 10h às 15h. Isso, obviamente, faz as filas aumentarem nas férias. Em período escolar, a recepcionista me disse que as filas são menores.

5. Ao chegar no 26ª elevador, um outro elevador (com capacidade para cinco pessoas) leva ao 32º. Isso faz uma nova fila se formar na primeira parada. Depois o visitante precisa subir ainda dois lances de escadas (59 degraus) até atingir uma espécie de antessala do mirante. Há ali algumas fotos, recortes de jornal e documentos sobre a construção do atualmente terceiro edifíci mais alto de São Paulo. Vejo que o prédio, inaugurado em 1947, foi inspirado no Empire State Building, de Nova York. Na época de sua inauguração, o Altino Arantes era o edifício mais alto da América do Sul.  Que bela chance de um guia ou um funcionário do banco falar um pouco sobre o prédio! Não. A vigilante terceirizada que fica ali estava com a TV ligada no Jornal Hoje.

6. Chegou a vez de subirmos ao mirante por uma escadinha caracol. Um bombeiro e outra segurança são os cicerones dos grupos de 5 a 8 pessoas. O tempo de permanência é de 5 minutos (acho que foi menos). A vista é mesmo magnífica e o tempo, insuficiente para ver algo direito. Toda a expectativa é concentrada para esse momento por causa do pouco caso com todo o resto. Tudo o que o bombeiro disse foi “vamos indo” e o “tempo acabou”. De novo, mais uma chance perdida de mostrar a cidade e falar de alguns pontos importantes que podem ser vistos lá de cima.

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7. No número de informações (tel. 2196-3730), o interessado só ouve uma mensagem gravada. Se quiser outras informações, precisa enviar e-mail para mirante.santander@santander.com.br. Fiz um teste.  Mandei o email às 15h50 do dia 2 e ele foi respondido às 11h48 do dia seguinte, quando eu já estava na fila. Não achei nada sobre o passeio no site do Santander. Se alguém souber onde o institucional está escondido, por favor, me avise aqui nos comentários.

Termino aqui as minhas contribuições. Você, leitor, deve ter outras ideias. Monitores, guias, historiadores e organização (funcionários terceirizados um pouco mais simpáticos seria pedir demais, né?) podem ser ótimos presentes do Santander para São Paulo no próximo dia 25 de janeiro. Ações mais bacanas que aquelas propagandas veiculadas no dia do aniversário em que o banco costuma declarar seu amor incondicional à cidade.

Em tempo: Altino Arantes Marques, paulista de Batatais, foi presidente do Estado de São Paulo (hoje seria governador) entre 1916 e 1920.

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