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Encostados na porta de vidro, dois manequins trajam figurinos de peças de teatro. Lá dentro, Neyde Rossi separa sapatinhas, bolsas, redes, meias e collants. Tudo cuidadosamente posicionado dentro das oito máquinas de lavar. “Precisa ter uma atenção especial com os bordados”, alerta a ex-bailarina. “Antes de começar a aceitar os pedidos, fiz vários testes para não estragar as roupas”. Neyde é dona da curiosa Lavanderia dos Artistas.

Neyde, 76 anos, já prestou serviços a diversas companhias de balés que se apresentaram em São Paulo. Hoje, ela é a responsável pelos trajes dos atores da peça “Caros Ouvintes”, que está em cartaz no Auditório do MASP. Desde que abriu as portas, há 24 anos, a lavanderia está no mesmo endereço, na Rua Fradique Coutinho, entre a Cardeal Arcoverde e a Teodoro Sampaio, em Pinheiros. O que mudou foi o nome do lugar.

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Há 24 anos, Neyde Rossi abriu a Lavanderia dos Artistas

No início, o empreendimento comprado por Neyde em 1990 era uma franquia da rede Laundromat. Com menos de um ano de funcionamento, o local foi contratado pela companhia de balé Cisne Negro. No final do espetáculo, a diretora Hulda Bittencourt, amiga de Neyde, congratulava todos os colaboradores. “Ela queria enfatizar que era a minha loja que estava lavando as roupas, e não todas as lojas da rede”, explica Neyde. “Então, no agradecimento, por conta própria, ela disse:  ‘Obrigado à Lavanderia dos Artistas’ e apresentou o meu endereço”.

As paredes da Lavanderia dos Artistas sustentam dois painéis repletos de cartazetes de divulgação de espetáculos na cidade. O balcão principal também recebe flyers e cartões que oferecem serviços diversos, como consertos de sapatilhas. “Muita gente passa por aqui e deixa os cartões porque sabe que nosso público se interessa por esse assunto”.

Neyde acabou saindo da franquia –  e  já tinha um novo nome para seu negócio. A amizade com Hulda e os serviços prestados pela lavanderia são apenas dois dos laços dela com o balé. Ao longo de 20 anos de carreira, outros marcaram sua trajetória nos palcos. “Foi uma tia quem apostou que eu levava jeito para a dança”, conta Neyde, que, aos 15 anos, fez parte do Ballet do IV Centenário. O grupo, comandado pelo diretor artístico húngaro Aurélio Millos, começou a se preparar em 1953, um ano antes da comemoração dos 400 anos de São Paulo, para uma glamorosa apresentação no Teatro Municipal. “O teatro estava passando por uma longa reforma. A companhia deu dinheiro para tentar acelerar as obras, mas não adiantou”. A apresentação aconteceu em um palco construído às pressas no Ginásio do Pacaembu. “Os paulistanos nunca viram esse espetáculo completo”, lamenta ela.

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Balcão da lavanderia é repleto de cartões e panfletos sobre a agenda cultural de São Paulo

A bailarina casou-se em 1960 e, cinco anos depois, já era mãe de três filhos.  “Voltei aos poucos para o balé, mas, por causa das crianças, não conseguia dedicar tanto tempo aos ensaios. Por isso, comecei a dar aulas”. A nova atividade fez com que a paulistana continuasse envolvida com as principais companhias de balé da cidade. Hoje, Neyde dá aulas de balé clássico em quatro escolas de diferentes bairros (Mooca, Bela Vista, Pinheiros e Brooklin). “Na semana passada uma aluna conseguiu bolsa para estudar fora do país”, vibra. “É uma realização que também é minha”.

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