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As caixas de papelão já estão empilhadas no fundo da loja. Nelson de Souza, 56 anos, tem mais um mês para desocupar a loja 221, instalada no segundo andar da Galeria do Rock, no Centro de São Paulo. As embalagens irão guardar as câmeras que ainda estão expostas na vitrine. A Luzir Flash, especializada em manutenção e vendas de câmeras analógicas, anunciou que fechará as portas depois de 40 anos de funcionamento. “Com a chegada das câmeras digitais, minha clientela caiu muito”, lamenta Nelson. “O negócio não está mais compensando. Vendi o local, já recebi o dinheiro e vou fechar as portas”.  O mundo da fotografia ficou de luto com a notícia.  “A loja inspirou muitos fotógrafos”, afirma Antônio Souza Neto, o Toninho, irmão mais velho de Nelson, sócio da Luzir Flash e síndico da galeria.

Um desses fotógrafos foi Luiz Casimiro, 42 anos, coordenador do departamento de arquivos da Gazeta, um dos muitos clientes da Luzir Flash. “O Nelson era diferente”, diz. “Atendia bem, cuidava dos equipamentos e tinha um ótimo preço”.  Agora resta aos clientes a quase vizinha  Galeria Sete de Abril. “Há quatro anos, fico pensando em fechar as portas”, confidencia o carioca Jaurez Soares, de 73 anos, dono da Medaglini. “Só continuo porque sou apaixonado”.  Jaurez começou a manipular lentes objetivas aos 13 anos. Em 1962, foi contratado por Rolando Medaglini para operar lentes de câmeras fotográficas. Lá, ele conheceu seu companheiro de trabalho, o paulistano Eldes Marques da Silva, na época com 15 anos. Em 1984, Medaglini decidiu vender a empresa, que foi arrematada pelos dois funcionários. Hoje, Jaurez e Eldes empregam mais uma única pessoa: João Quentino Nunes, de 63 anos.

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Jaurez e Eldes, sócios da loja Medaglini, trabalham juntos desde 1962

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“Nada como uma boa foto em preto e branco no papel”, suspira Jaurez, com o retrato que ganhou de um amigo fotógrafo

“A relação fotógrafo e fotografia está cada vez mais fria”, opina Jaurez. Ele conta que, ao comemorar 40 anos de casados, em 2005, amigos o presentearam com uma sessão de fotos.  “Tiraram umas 1000 e só aprovei 30”, relata, entre gargalhadas. “Atualmente, a maioria dos fotógrafos não pensa antes de fotografar”. Eldes endossa a tese: “O pessoal faz muitas fotos, mas ninguém vê nada”, resmunga. “Lembro de ir visitar um amigo e ficar folheando as fotos. Cada imagem tinha uma história, uma lembrança. Qual é a graça de ficar em frente a uma tela apertando um botão?”. Jaurez explica que a Medaglini oferece manutenção também para câmeras digitais, mas a principal fonte de renda da empresa continua sendo de câmeras analógicas manuseadas por fotógrafos à moda antiga.

Os apaixonados pela fotografia seguirão com a Medaglini não se sabe por quanto tempo. Enquanto isso, o espaço ocupado pela Luzir Flash se transformará em mais uma loja de roupas e acessórios para skatistas e que ele vai trabalhar no ramo imobiliário. “O Nelson vai em busca de descobertas novas”, resume Toninho, 62 anos, que é dono da loja de roupas G.Rock, também instalada no segundo andar da galeria.

Embora tenha trabalhado no ramo por 40 anos, Nelson de Souza só fez uma exigência para conversar com o blog. Nada de fotografias dele ou da loja. Seu desejo foi uma ordem.

Serviço:
Medaglini
Rua Sete de Abril, 125, República, 2º andar, conj. 212
Tel. 3255-7976
De seg. a sex. das 9h às 18h

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