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O culto começa pontualmente às 10 horas do segundo domingo de cada mês. Os fiéis não costumam atrasar. Calça jeans, botas e colete de couro preto, decorado com bótons e estampas. Na maioria dos casos, um óculos de sol balança na gola da camiseta e cabelos compridos são cobertos por uma bandana também de cor preta. Debaixo do braço, o inseparável capacete. No bolso, a chave da moto. A Missa do Motociclista foi criada em 2006 pelo padre Claudiomiro Bispo, 36 anos, na Paróquia Santa Margarida Maria, na Vila Mariana. Há seis anos, o padre mudou-se para a Pároquia de San Gennaro, na Mooca, onde a missa é realizada agora. “É uma forma não convencional para descobrir novos fiéis”, explica o padre.

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Motociclistas vão chegando para a missa na Paróquia de San Gennaro (Foto: Fernanda Silva)

No encontro do mês de março, 52 motocicletas estavam estacionadas em frente à igreja. “E hoje nem está cheio”, brincou o padre. “Em média, temos 100 motos por reunião”.  Claudiomiro lembra que no último Dia do Motociclista, comemorado em 27 de julho, 1000 motocicletas participaram de uma passeata especial, a “Motoada”.  A missa ocorre normalmente com cantos, orações e os louvores tradicionais. “O que muda é o ofertório”, esclarece o jornalista Humberto Glauco Aliperti, 42 anos, um dos coordenadores do movimento “Paz no Trânsito, Paz no Mundo”, desenvolvido pelo padre Claudiomiro junto à missa dos motociclistas. Aos domingos, Humberto fica do lado de fora da igreja. Ele passa o tempo todo gritando e sinalizando os melhores lugares para os motociclistas estacionarem suas motos.

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O padre alagoano Claudiomiro Bispo criou a missa em 2006 (Foto: Fernanda Silva)

Quando chega o momento do ofertório, o jornalista corre para dentro da capela. Os motociclistas fazem uma fila e exibem ao padre capacetes, coletes e chaves. Claudiomiro abençoa os objetos um a um. Depois da celebração especial, a hóstia é distribuída aos presentes.

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Capacetes, coletes e chaves são abençoados (Foto: Fernanda Silva)

A missa termina pouco depois das 11 horas. Daí tem início a segunda parte do encontro. Os motociclistas saem juntos para a “Motoada”. O número de motos aumenta visivelmente. “Muitos não participam da missa, mas fazem parte do movimento Paz no Trânsito”, diz Claudiomiro. “O conceito está acima de qualquer religião”, completa o padre que, de capacete vermelho, óculos de sol e microfone, vai à frente das motos em cima de um caminhão, convidando os moradores da região para frequentar as missas e o grupo de motociclistas.

“Meu filho sempre me acompanha,  é algo que passa naturalmente de geração em geração”, garante o contador Eduardo Nunes, 36 anos, que participou pela primeira vez do encontro ao lado do filho Vinícius Viveiros, de 11 anos, aluno do sétimo ano do ensino fundamental. “Um dia meu pai vai ser meu garupa”, brinca o garoto.  Eduardo foi convidado pelo autônomo Paulo Guilherme, 60 anos, a participar do compromisso mensal. “O importante é o grupo de amigos. Você não encontra isso em qualquer lugar”, orgulha-se Paulo, que há dois anos não perde uma reunião.

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Eduardo e o filho Vinicius: de geração em geração (Foto: Fernanda Silva)

O final do passeio, que dura cerca de 40 minutos e é acompanhado por dois policiais militares, acontece na rua atrás da igreja, em um grande salão que pertence à paróquia. Todos estacionam as motos, levantam a mão direita e fazem uma oração, enquanto o padre asperge água benta sobre todos. O “amém” mistura-se com o ronco e a buzina dos motores. Acabou? Não! Ainda falta a terceira e última parte do encontro mensal: a macarronada com show de rock.

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Passeata dura 40 minutos e percorre os bairros próximos à Mooca (Foto: Fernanda Silva)

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Benção final no encerramento da “Motoada” do mês passado (Foto: Fernanda Silva)

No encontro do mês passado, quase 100 cadeiras estavam ocupadas para a macarronada, que é distribuída gratuitamente.  E não apenas aos motociclistas. Qualquer pessoa que chegar ao local come à vontade. O almoço é sempre acompanhado de um show de rock ao vivo. “Pedimos àqueles que podem colaborar um quilo de alimento para doação em casas carentes”, lembra Claudiomiro. “É um encontro jovem, o padre interage com o público e não é nada cansativo”, elogia Valdemar de Campos, 52 anos, o Dema, que ao lado da mulher Cristina Lepeske, 50 anos, participou do evento pela primeira vez. “Vou trazer alguns amigos motociclistas no próximo mês”, garantiu.

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Show segue até o fim da tarde aos domingos (Foto: Fernanda Silva)

O padre Claudiomiro Bispo é o caçula de uma família alagoana de 17 irmãos. Foi Everaldo, o mais velho deles, que lhe emprestou a primeira moto.“Era uma CG 125 cilindradas”, lembra Claudiomiro, que na época tinha apenas 10 anos.  Em 1998, ele deixou Alagoas e foi para Campinas, interior paulista, estudar filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Graduado, mudou-se para São Paulo, oito anos depois.

A ideia de montar o movimento floresceu não apenas do gosto pessoal por moto. O estopim para a criação do projeto aconteceu depois de um acidente de trânsito. O padre acabara de visitar um paciente no Hospital Santa Catarina, na Avenida Paulista. Ao sair com sua moto, um motoboy, em alta velocidade, pediu passagem ao padre. Claudiomiro abriu passagem para o apressadinho. Poucos metros à frente um grupo de trabalhadores recapeava a avenida.  O motoboy não enxergou o maquinário de pavimentação a tempo de frear. “Lembro do corpo voando com o impacto”, conta. “Acho que ele caiu no chão já morto”. Dois dias depois, uma mulher entrou na paróquia para agendar uma missa de sétimo dia em memória do filho morto em um acidente de moto. “Perguntei o dia e local do ocorrido”, lembra. “Descobri que eu havia presenciado a morte do filho dela”.

Pensando em diminuir a violência no trânsito, Claudiomiro escreveu a “Oração do Motociclista”. O texto recebeu aprovação eclesiástica do então papa  Bento XVI. “Em momentos de discussões, em vez de revidar, distribuímos a oração”. O próximo desejo do padre é fazer uma grande romaria de moto à Basílica do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte. “Ao longo do tempo, percebi que posso fazer mais do que rezar”, finaliza Claudiomiro, que, no mês passado, voltou de carona para casa. Sua moto, uma Yamaha XT 660 cilindradas, estava na oficina para revisão.

Igreja de San Gennaro
Rua da Mooca, 950
Tel. 3209-0089 / 3207-1049
Missa do Motociclista – Todo segundo domingo do mês, às 10h

(com reportagem de Vinicius Custódio)

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