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Aurora e Peregrino, que chegaram ao Aquário de São Paulo em dezembro de 2014, foram anunciados como os primeiros ursos polares a desembarcarem em terras brasileiras.  Mas o livro “Jardim da Acclimação – O primeiro zoológico de São Paulo(Editora Senac), escrito por Antonio Carlos Botelho Souza Aranha, traz uma outra história. Antonio Carlos é bisneto de Carlos Botelho, criador do Jardim da Acclimação. Inspirado num parque francês, ele abandonou a Medicina para colocar esse sonho em pé no ano de 1892.  Carlos trouxe em 1929 um exemplar de “um urso branco do Pólo Norte”, batizado de Moritz. Anúncios sobre a novidade foram destaque em vários jornais da época, incluindo o Fanfulla, dirigido para a colônia italiana.

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Jornais anunciaram a chegada do primeiro “urso branco do Pólo Norte”

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Carlos Botelho, na entrada principal do primeiro zoológico de São Paulo

O urso desembarcou no Porto de Santos junto com um camelo, dois pelicanos rosa, três macacos mandril, duas hienas e três leões. Carlos Botelho e a filha, Maria Amélia Botelho Souza Aranha, estavam na verdade esperando uma ursa, encomendada junto ao circo de Carl Hagenbeck, da Bélgica. Mas Moritz era mesmo um macho, de idade desconhecida. Os animais subiram para São Paulo,  em pequenos caminhões, pela antiga estrada da Serra do Mar.

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Na nota fiscal do circo de Carl Hagenbeck, havia uma fêmea, mas foi um urso macho que desembarcou no Porto de Santos em 1929

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Os animais subiram a Serra do Mar em caixas de madeira num pequeno caminhão

Em troca, o Jardim da Acclimação forneceu espécies tropicais como papagaios, capivaras, onças e porcos do mato, que viajaram por 23 dias rumo à Europa. A aquisição de animais que não são originários da região em que o zoológico se localiza é comum. “Animais exóticos são importantes para o parque que visa lucro”, explica o biólogo Guilherme Domenichelli, que trabalhou no Zoológico de São Paulo entre 2001 e 2009. “Além disso, a criação e a reprodução em cativeiro pode salvar uma espécie ameaçada de extinção”.  O urso-polar entrou para a lista de animais ameaçados de extinção em 2008.

“Um urso-polar chama muita atenção por ser um animal que vive no gelo. Sua sobrevivência depende do tempo frio”, conta Antonio Carlos Botelho Souza Aranha. Moritz caiu logo nas graças do público (principalmente das crianças), que preferiu abrasileirar seu nome para “Maurício”. 

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Moritz caiu nas graças do público e teve seu nome mudado para Mauricio

Maurício tinha um fosso climatizado só para ele. Blocos de gelo, que vinham diariamente da fábrica de bebidas Brahma, mantinham a temperatura baixa.  A título de comparação, hoje, no Aquário de São Paulo, no bairro do Ipiranga, os ursos polares vivem numa temperatura entre 15 e 5 graus negativos. “É difícil imaginar um urso polar vivendo bem nessas condições num país tropical”, afirma Domenichelli. “Um fosso ao ar livre não é adequado para a espécie. Num verão muito quente, ele poderia ter morrido”.

O fosso ficava ao lado direito do lago, junto às novas jaulas feitas especialmente para os animais que vinham de fora. O zoológico da Aclimação trouxe uma grande quantidade de ursos cinzentos, que nem sonharam em ter as mesmas regalias de Maurício.

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O fosso de Maurício era climatizado com placas de gelo que chegavam diariamente de uma fábrica de bebidas

Maurício ganhou destaque outra vez nos jornais quando mordeu um tratador que limpava seu recinto. “Pelo o que pesquisei, ele era um urso manso até então”, descreve Antonio Carlos. Animais em cativeiros não são, necessariamente, mais mansos. Ficar preso em condições precárias pode provocar estresse ao animal. “Ele pode acordar de mau humor, como acontece com todos os outros bichos”, ensina Domenichelli. “Por isso, ele deve ser sempre respeitado. Vários fatores podem alterar o comportamento do animal: uma possível dor, uma atitude estranha do cuidador, a invasão do seu espaço e o estresse”.

Muitos animais morreram antes da venda do zoológico para a Prefeitura, em 1939. Maurício foi um deles. Não se sabe exatamente a causa da morte. A única lembrança do primeiro astro do primeiro zoológico de São Paulo é a cabeça empalhada, guardada até hoje pela família numa chácara em Indaiatuba, interior de São Paulo.

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Filha de Antonio Carlos posa com a cabeça empalhada de Maurício

Ao comprar a área, a Prefeitura fechou o zoológico e depois o parque de diversões que havia ao lado. Durante um bom tempo, o local ficou praticamente abandonado. Hoje funciona ali o Parque da Aclimação, aberto ao público.

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