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Figuras do game Space Invaders na calçada dão as boas-vindas para os clientes do Bar Gibi Cultura Geek, no bairro da Vila Mariana. Do lado de dentro, originais de quadrinhos nas paredes, lustres que imitam as caixas amarelas das aventuras de Super Mario Bros e action figures espalhados pelos dois andares dão um tom 100% nerd ao ambiente. O bar foi inaugurado em 30 de janeiro, coincidentemente o dia nacional dos quadrinhos, e teve um investimento de 700 mil reais do webdesigner  Tiago Almeida, de 34 anos, e de seus cinco sócios. Os destaques do cardápio são os cachorro-quentes (que podem vir com catchup de vodca e maionese de bacon), e uma carta com 34 diferentes cervejas. Tiago conversou com a repórter Beatriz Duarte num sábado à tarde, quando o movimento ainda estava começando. Embora estivesse com uma camiseta do personagem The Flash, chegou com uma hora e meia de atraso.

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Qual é a melhor definição para nerd?
Nerd é um cara aficionado por um assunto e que o leva ao extremo. Se gosta de quadrinhos, ele vai colecionar e saber tudo sobre os personagens. Se gosta de futebol, ele vai saber quem venceu cada campeonato, até mesmo antes de ele ter nascido. Hoje em dia não existem vários tipos de nerd, e não tem um genérico. Quando você gosta de quadrinhos, acaba espirrando um pouco para o videogame e cinema, porque os personagens estão nessas outras mídias também. Talvez por isso esse seja o nerd que mais chame a atenção. Mas nerd é ser um cara que foca em um assunto e vai fundo.

Quando você percebeu que tinha se transformado em um nerd?
Quando eu era moleque, o pessoal já falava que eu era um nerd. Mas ninguém falava em tom pejorativo. Eu era um cara excêntrico, já colecionava várias coisas. Foi lá por volta dos doze, quinze anos. Era engraçada a reação das meninas ao entrar no quarto de um cara e ver um monte de bonequinhos e quadrinhos (risos). Mas nunca me importei com isso, nunca tive problema em ser visto como nerd.

Então a ideia do bar surgiu porque você não tinha mais lugar para guardar as suas coleções nerd em casa?
Exatamente (risos)! Pode parecer brincadeira, mas esse é um dos motivos, na real. Chega uma hora que o colecionador não tem mais espaço e aí tudo o que você vai fazer na sua vida, seja uma mudança de casa, de cidade, você tem que pensar no tanto de coisa que tem que carregar junto. Eu me perguntava até onde ia parar essa coleção. Então resolvi achar uma utilidade para ela. Os meus amigos, sempre que iam lá em casa, adoravam fotografar os meus bonecos e eu emprestava os meus quadrinhos para eles. Foi aí que eu pensei em tornar esse meu acervo nerd em um espaço público, para poder compartilhar com outras pessoas também.

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Tem alguma coisa da sua coleção que você tem muito ciúme?
O meu personagem preferido é o Lobo (anti-herói alienígena humanoide, personagem de histórias em quadrinhos da DC Comics, criado em 1983 por Keith Giffen e Roger Slifer). Procuro comprar tudo o que tem de merchandising dele, de action file, estátuas, essas coisas.

Você deixa tudo isso exposto aqui no bar?
Não, esses ficam em casa! Pelas coisas do Lobo eu tenho um superxodó!

Alguém já tentou levar algum item aqui exposto?
Não está nada no seguro, porque as empresas não fazem seguro para bonecos. Aqui nós temos uns copos para shots de bebida, que imitam uma cápsula de bala 12. A gente serve, mas sempre fica de olho, porque a galera quer colocar na bolsa. Já aconteceu de guardarem, nós fomos falar pra pessoa que o copo não era brinde. Ela devolveu, e ainda demos uma cerveja de graça, para o cliente não se sentir tão mal.

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Qual foi a maior loucura nerd que você já fez?
Tem várias! Uma delas foi faltar ao trabalho para ver a pré-estreia de um filme do Homem-Aranha. Peguei uma fila de quatro horas. Dai cheguei no dia seguinte, louco pra contar que tinha visto o filme, mas não podia. Tinha falado para o chefe que eu estava doente, então fui obrigado a fingir que eu ainda estava mal (risos).

Você está usando uma blusa com o símbolo do personagem The Flash. Vem sempre trabalhar a caráter?
Sempre! Fazia isso também no meu emprego anterior, na verdade, em qualquer lugar. Meu armário só tem camiseta de super-herói. Se uso camisetas básicas, é pra colocar em baixo de uma com estampa legal, quando tenho certeza que elas não vão aparecer. Eu sempre gostei desse tipo de estampa. Olhando fotos minhas com seis, doze anos de idade, eu estou sempre com uma camiseta do Super-Homem, do Batman… Isso nunca saiu da minha veia!

Por que os nerds são vidrados nesse tipo de camiseta, com frases e desenhos de personagens?
Agora existe uma vertente que são sites que vendem uma camiseta durante 24 horas. Você tem que olhar o site para ver qual é a estampa do dia, porque, se deixar passar, no dia seguinte já é outra diferente. Então acaba virando um vício, uma mania. As estampas costumam ser sempre o que a gente chama de “mashup”, que é juntar personagens diferentes, fazendo uma piadinha. Uma, por exemplo, é a das Tartarugas Ninjas brigando com o Mario Bros, porque ele costuma pisar nas tartaruguinhas. A maioria da galera que frequenta aqui acaba usando esse tipo de camiseta, o que cria uma situação legal de um comentar com o outro, perguntar onde comprou, esse tipo de coisa…

Tem alguma estampa nerd que já tenha saído de moda?
Elas não saem de moda. Até acho que quanto mais antiga, mais legal ainda. E a camiseta nerd vira meio uma coleção também, então a pessoa não tira nenhuma do armário.

Antes de abrir o bar, o seu emprego anterior também era ligado com o mundo nerd?
Era. Eu trabalhava no portal UOL. Fazia a parte de games lá. Sempre me relacionava com programadores, arquitetos da informação, jornalistas… Os jornalistas são menos nerds que os outros dois. Então eu diria que sempre me liguei nesse mundo nerd, pelo assunto e pelas pessoas com quem trabalhava.

Quais são os tipos de nerd que frequentam o bar? Existem tribos diferentes?
Hoje em dia tem aquele tipo genérico de nerd, que eu e o pessoal acabam chamando de geek. É a mesma coisa, na verdade. Mas pesquisando na internet eu vi um gráfico que mostrava que o geek é a intersecção de uma pessoa social com um nerd. Eles têm as mesmas características, mas digamos que o geek sai mais de casa do que o nerd. Daí, nessa classificação, tem os Beer Geeks, que são as pessoas aficionadas por cerveja, que usam até um aplicativo no celular pra dizer qual está tomando e em que lugar. Tem também os aficionados pela Marvel, pela DC, essas coisas, por causa dos filmes e séries. E os que gostam também da Marvel, mas por causa dos quadrinhos.

Já aconteceu alguma história curiosa aqui em relação a essas diferenças?
Sempre acontece. A gente brinca falando que precisaria ter um reality show aqui do bar porque acontece muita coisa engraçada. Existem uns tipos nerds que você identifica que são pessoas com mais dificuldade de se relacionar com outras, que talvez estejam mais acostumadas a ficar trancadas em casa jogando videogame. Dai quando eles vêm aqui pro bar, eles se sentem muito à vontade, porque nunca viram um lugar tão parecido com o ambiente deles. Nisso, eles começam a querer se relacionar. Muitas vezes dá certo, mas tem horas que o outro não tá a fim de interação e rola um estranhamento. Na hora que você vai ver o que tá acontecendo, a pessoa fala: “O que esse cara tá fazendo aqui? Aqui não é lugar dele, aqui é o lugar dos nerds!”. Então acontece esse tipo de situação. Briga é uma coisa que tem em todo bar, a diferença é que aqui é sem violência.

Por causa do wi-fi grátis aqui do bar, já se formou algum casal, os nerds se falam entre eles ou só ficam no WhatsApp?
Falam, se falam sim. O ambiente inspira muito assunto nerd. Por exemplo, tem originais de quadrinhos aqui na parede. Daí uma pessoa começa a admirar, fala uma besteira, o cara nerd do lado acaba corrigindo e assim surge uma conversa. Isso também acontece com o comentário de algum videogame, de uma série ou filme que está passando aqui nas TVs do bar. Aqui raramente você vê alguém vidrado no celular. Quando era horário de almoço no meu emprego anterior, todos ficavam no celular e nem conversavam. E eu ficava totalmente excluído, porque não tinha um smartphone (ele tira do bolso um modelo antigo de um celular Motorola e mostra para a reportagem).

Mas você nunca se interessou por modelos mais modernos de celular?
Depois que abri esse bar eu tive que comprar um iPhone. Nós temos um sistema em que pelo celular a pessoa pode escolher a música para tocar aqui no bar, como se fosse uma jukebox virtual. Ficava ruim eu falar para o cliente “me empresta seu celular pra eu mostrar como funciona”. Então hoje em dia eu tenho, mas não sou um escravo dele. Não sou como meus amigos que falam com alguém enquanto respondem um e-mail e curtem algo no Facebook. E ainda ando com o meu bom e velho celular que só manda SMS.

Como foi a escolha do menue dos nomes dos pratos?
Essa é a nossa diversão máxima. Sempre tive a ideia de criar um cardápio com um humor mais inteligente. Em vez de você ler “Hot Dog do Capitão América”, ou então “Drink dos Caça-Fantasmas”, eu sempre pensei no nome ser uma dica que lembre alguma dessas coisas. A gente chama isso de “easter egg”, que são detalhes escondidos em filmes, por exemplo, que só quem é muito fã percebe. Por exemplo, a gente vende um drinque que se chama “Proton Charging”, que é a frase que os Caça-Fantasmas falam quando eles estão carregando os feixes. Dai, além de a gente não ter problemas com direitos autorais, fica uma brincadeira legal das pessoas tentarem lembrar qual a referência do filme ou personagem de cada item do menu.

Se você pudesse escolher uma frase de um personagem nerd para defini-lo, qual seria?
Talvez o que as Tartarugas Ninjas dizem: “Cowabanga!”. É o grito de guerra delas. Uma vez, fui em um evento de cosplay. Tinha um monte de gente com fantasias superproduzidas e eu fui só com uma camiseta escrita “Tartarugas Ninjas”. Um monte de caras vinha falar comigo, e eu achei uma situação muito engraçada, porque eu era o que estava com a roupa mais simples de todas. Isso ficou na minha cabeça. É uma frase que eu tenho na minha cabeça desde que me entendo por nerd.

Serviço:
Rua Major Maragliano, 364, Vila Mariana
Tel. 5084-1165
Qua. a Sáb., das 17h às 23h30; dom. 15h às 21h

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