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“Temos vagas para Papai Noel”. Em época de renas magras, o chamariz do curso oferecido pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo parecia muito tentador. O curso de capacitação de Papai Noel, Mamãe Noel e Noeletes aconteceu esta manhã no auditório do quarto andar do sindicato, na rua Formosa, centro de São Paulo. Das 60 vagas disponíveis, apenas 40 foram preenchidas. Embora fosse gratuito, o curso acabou atraindo mesmo 20 alunos – 14 homens e seis mulheres, com uma média de 60 anos. Todos estavam usando gorros vermelhos, oferecidos pela organização.  “Um bom Papai Noel deve ser gordinho, comunicativo, sorridente, estar de bem com a vida e gostar de criança”, listou Silvio Ribeiro, 66 anos, que ministra esse tipo de curso há quatro décadas.

papai noel

Os 20 alunos ganharam gorros vermelhos, oferecidos pelo Sindicato dos Comerciários

É o segundo ano em que o Sindicato dos Comerciários faz parceria com Silvio (mas o Papai Noel reclamou do calor e disse que não volta mais lá se o ar-condicionado não for arrumado). “Nossa intenção é dar ainda mais capacitação para aqueles que estão desempregados”, explica Antonio Carlos Duarte, diretor do Sindicato. “Em época de crise, isso significa um emprego por pelo menos 40 dias, o que é ótimo”.  Na visão do Antonio Carlos, a figura do Papai Noel chama a atenção de quem passa, dando mais visibilidade ao negócio. Um “Papai Noel” pode faturar até 1 200 reais num mês de trabalho.

Durante o curso, Silvio abusou de mostrar fotos suas ao lado de celebridades. Embora tenha enviado releases para a imprensa nos últimos dias, Silvio dedicou boa parte do tempo a zombar dos repórteres que estavam cobrindo o evento. Também ficou destilando veneno contra o PT. Mas o que os alunos queriam mesmo eram dicas práticas. A barra do gorro, por exemplo, deve ficar dois dedos acima das sobrancelhas. Ele falou de como sair de algumas saias justas, como lidar com adolescentes rebeldes. “Não pode xingar de volta, tem que resolver na conversa”, ensinou. O que mais divertiu os alunos foi o famoso “hoo, hooo, hoooo!”. “É preciso inspirar bem fundo e soltar cada ‘hoo’ pausadamente, junto com o ar”.

“Acho que já aprendi”, disse Osvaldo Orzakawskas, 75 anos,  à repórter Malu Miserochi, do São Paulo para Curiosos. “Hoo, hooo, hoooo! Está bom?”. Depois que se aposentou, no ano passado, Osvaldo resolveu realizar o sonho de se tornar um Bom Velhinho. Hoje, com a barba e o cabelo brancos bem crescidos, o morador de São Miguel Paulista, na zona Leste, é constantemente confundido com Noel. Tanto que foi escolhido entre os presentes do curso para passar pela caracterização do personagem natalino. “Na semana passada, no metrô, uma menininha me olhou e disse ‘olha mamãe, o Papai Noel’. Fiquei tão feliz!”, contou, emocionado.“Amo crianças, amo poder fazê-las minimamente felizes”. Osvaldo tem quatro netos e irá se fantasiar de Papai Noel neste Natal.

Osvaldo

Osvaldo e Maria Franchesca foram escolhidos para se caracterizarem de Papai e Mamãe Noel durante o curso

Osvaldo ficou ao lado de Maria Franchesca Montanaro, 66 anos, escolhida para ser a Mamãe Noel. Franchesca nasceu em Bari, na Itália, mesma região onde estão enterrados os ossos de Nicolau, o bispo que viveu em Myra, na Turquia, no século 4 e que inspirou a figura de roupa vermelha que conhecemos hoje. “Vim para o Brasil com os meus pais quando tinha 5 anos”, conta Franchesca. Ela trabalhou a vida inteira como comerciante e se aposentou no final de 2014. Decidiu que essa era a oportunidade perfeita de testar seus dotes artísticos. “Acho que vou me dar muito bem como Mamãe Noel”, jactou-se.

O cearense Domingos Sávio Gomes Chagas, 61 anos, ex-funcionário dos Correios, já trabalha como protagonista em todas as peças da igreja que frequenta. “Já fiz Moisés, Noé… Nesse Natal, eu irei me fantasiar de Papai Noel para entregar presentes a crianças carentes”.

Sávio

Domingos Sávio Gomes Chagas já interpretou Moisés e Noé em pequenas produções da igreja que frequenta

No final do curso, cada aluno tirou uma foto, que será encaminhada para as empresas interessadas em contratar os serviços natalinos. “Nesse momento, o foco principal são hipermercados e supermercados”, avisa Silvio. “Shoppings já têm seus fixos”.

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