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Falta uma hora e 20 minutos para o ator Eduardo Martini, 51 anos, entrar em cena quando ele se materializa no camarim. Chegando em cima da hora? Não. Ele estava ensaiando no Teatro União Cultural, no bairro do Paraíso, desde as 3 da tarde. O espetáculo Cinderela, que irá estrear na próxima semana. Mas não é só. Eduardo, diretor artístico do lugar, está com três peças em cartaz simultaneamente: “Cada um tem o Anjo que Merece” (sextas), “Quem Matou Maria Helena” (sábados) e “I Love Neide” (domingos). “Fui assaltado ontem na porta de casa, por isso estou todo machucado”, ele explica para a repórter Beatriz Duarte logo que entra no camarim. Durante os 40 minutos de conversa, Carlos Eduardo Porta Martini fica inquieto na cadeira, abrindo as gavetas para mostrar acessórios dos figurinos, pinta as unhas para demonstrar o truque que faz com a personagem Neide (e, logo em seguida, já abre outra gaveta para encontrar a acetona), e se levanta para mostrar o casaco de plumas que ganhou da amiga Adriane Galisteu. Toma um café e come um pão-de-queijo.  No meio de algumas respostas, Eduardo vai se lembrando de tarefas que precisam ser resolvidas: “Preciso buscar o figurino que deixei na lavanderia”. A conversa acaba às 20h30, exatamente meia hora antes de ele subir no palco novamente. Se fosse domingo, ele teria encerrado a conversa antes. Saiba o motivo agora na entrevista que ele concedeu ao São Paulo para Curiosos.

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Eduardo Martini em seu camarim, com o casaco de 6 quilos que usa para a personagem Neide aos domingos

Tem gente que não consegue nem decorar a senha do banco… Como é que você consegue decorar textos de três espetáculos de uma vez?
(Risos) Decorar não é o bacana. O ator precisa entender o texto, o raciocínio do personagem e dar realidade àquilo que está falando. Acaba sendo um processo muito mais interessante do que só decorar um texto. Lógico que existem as deixas que os outros atores fazem e você tem que saber o roteiro para acompanhar a história. E é claro que o texto do autor deve ser respeitado. Mas existe a maneira com que cada um fala uma mesma coisa.  Os autores com quem eu trabalho me dão muita liberdade nesse aspecto, por isso, eu relaxo na hora de decorar o texto. Meu decorar é dessa maneira: sintetizo as falas usando o raciocínio do personagem, sabendo o que ele vai fazer em cena.

Com uma memória tão boa assim, você consegue lembrar do texto da primeira peça que fez? Aliás, qual foi?
Lembro! O primeiro texto que fiz foi a peça Um Tango Argentino, de Maria Clara Machado. Atuava com a Fernanda Torres e fui indicado ao prêmio de ator revelação. Eu interpretava o Carlos, um professor de tango que falava “mamita, mamita querida”. Já o primeiro texto profissional foi o do musical A Bruxinha que era Boa, em 1978, também da Maria Clara Machado. Meu personagem, Pedro, entrava em cena falando: “Quem tá aí? O que é que tá acontecendo? Oi! Nossa, que floresta esquisita!”. E era engraçado porque a peça era no Rio de Janeiro e eu ainda tinha muito sotaque de paulista. Não consigo fazê-lo inteiro, mas ainda lembro de muita coisa, muitas falas, coreografias, e dá uma saudade enorme! Quando entrei para [escola de teatro] O Tablado, fiz escondido do meu pai.

Alguma vez, fazendo tantas peças ao mesmo tempo, você chegou a confundir os roteiros?
Não, nunca confundi. Desde o começo do dia, fico focado naquilo que vou fazer. Sexta-feira, por exemplo, é dia de “Maria Helena” e isso fica o tempo todo na minha cabeça. É uma espécie de preparação interna. Há um momento em que é preciso ter cinco minutos de concentração. Hora de falar para mim mesmo “já ensaiei, já dei entrevista, já comi, já brinquei com o elenco, agora eu vou trabalhar”. Não se trata de “receber meu personagem”, não é nada disso. É um momento de concentração. Tomo muito cuidado de não repetir o jeito de algum personagem em outra peça, de fazer “Maria Helena” na sexta e levar alguma característica para a apresentação do “Anjo”. Vejo que tudo certo quando o público me diz: “Nossa, são três peças tão diferentes, como é que você consegue?”. O segredo é prestar atenção e ter respeito tanto pelo trabalho quanto pelo público.

Dizem sempre que mulher demora mais para se arrumar. Para se caracterizar como a personagem Neide, você leva mais tempo que nos outros dias?
Em qualquer peça, costumo ser meio chato com isso. Chego três horas antes para me arrumar e para ajeitar os últimos detalhes do cenário. Eu pensei em estudar Arquitetura. Tenho um pouco dessa noção do ambiente e quero deixá-lo bonito para o público. Quando faço o papel de homem, costumo demorar meia hora para ficar pronto. É só fazer a barba e a roupa senta em você. Também faço maquiagem porque o público não paga para ver a minha olheira. Quando interpreto uma mulher, acabo demorando uma hora porque são muito detalhes com que se preocupar. Eu pinto as unhas das mãos e dos pés, faço maquiagem, enrolo a peruca, coloco vestido e salto alto. Falo isso não para criticar uma mulher. É bom que se diga que a Neide não é uma versão engraçada de mulher, ela é uma mulher. Até o mês passado, estava em cartaz aqui no União Cultural a peça Chá das 5, com 9 homens interpretando 9 mulheres. Chegava no teatro quatro horas antes para ter tempo de todo mundo se produzir.

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Na comédia ‘Cada um tem o Anjo que Merece’, Eduardo Martini interpreta um anjo atrapalhado, enviado por Deus para salvar um casamento

O figurino da Neide tem alguma peça curiosa?
Tem um casaco que uso em cena que é inteiro de pluma, tanto por dentro quanto por fora. Acho que ele deve pesar por volta de 6 quilos. Foi um presente que ganhei da Adriane Galisteu. Tenho muito carinho por ele. É que tudo na Neide precisa ser grande para deixar o Eduardo menor, para criar proporções do tamanho da mulher. Então para isso eu pinto só o meio da unha para afinar os meus dedos, uso anéis e pulseiras grandes, vestido preto, tudo isso para criar essa imagem.

Para se caracterizar de mulher você acaba usando brinco, maquiagem, vestido… Mas, por baixo, usa calcinha e sutiã?
Em cena, uso um bojo do mesmo material do sutiã, que simula um peito no tamanho 42. Então acabo usando um macaquinho, como se fosse aquele de lipoaspiração para mulher, que segura o peito e o microfone. Por cima dele, uso uma calcinha de algodão, em tamanho grande, do lado contrário. Ela acaba funcionando como um tapa-sexo para homem, só que mais barato e mais confortável.

Alguma vez, depois de uma apresentação, você saiu caracterizado de “Neide” pelas ruas para ver a reação das pessoas?
Já sai uma vez para fazer um evento na Raposo Tavares e foi muito engraçado. Eu me perdi e fui obrigado a parar num posto de gasolina para pedir ajuda. Os frentistas não tiveram nenhum tipo de preconceito. Eles me trataram com educação, se referindo a mim como “minha senhora”, por causa da peruca de cabelo grisalho que uso na personagem. Eu não tive escolha, não teria tempo de me arrumar quando chegasse ao evento. Já fui arrumado, só que com tênis para ir dirigindo, e coloquei o salto alto quando cheguei. Eu e minhas produtoras chorávamos de rir com a situação.

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Eduardo Martini demora uma hora para se caracterizar antes de entrar em cena na peça ‘I Love Neide’

Qual das três peças deixa você mais cansado no final?
A peça Cada um tem um Anjo que Merece é a mais fácil, porque somos em três atores. As outras duas são monólogos. Em Quem Matou Maria Helena, o texto é muito complicado porque faço seis irmãos gêmeos. Tenho que mudar um detalhe no cabelo, na roupa e no gesto, é uma trama mais difícil. A I Love Neide também causa um cansaço porque uso salto alto, já é domingo… Mas a entrega para as três peças é a mesma, o importante é ter uma preparação física séria. Cansar, não me cansa, pois tenho um prazer muito grande de estar em cena.

Nas peças ‘Cada um tem o Anjo que Merece’ e ‘Quem Matou Maria Helena’, além de ator, você também é diretor. É a primeira vez que você encara essa dupla jornada?
Não é a primeira vez, não. Há três anos, dirigi quatro peças aqui mesmo no União Cultural – 10 Maneiras de Destruir seu Casamento, I Love Neide, Até que o Casamento nos Separe e Na Medida do Possível. Duas eram monólogos e duas tinham o mesmo elenco. Gosto desses novos desafios, estou em uma fase de renovação.

Você não chegou a pensar em ser diretor nas três peças?
Eu era diretor de I Love Neide. Comecei dirigindo, mas, como estou em cartaz desde 2007, teve uma hora que percebi que era preciso renovar. Foi quando chamei a Clarisse Abujamra que começou a tirar algumas coisas, mudar outras, e então eu fui me adaptando a essa nova história, mas com o personagem já pronto.

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No monólogo ‘Quem Matou Maria Helena’, Eduardo Martini interpreta sete personagens diferentes

As três peças ficam em cartaz até quando?
Cada um tem o Anjo que Merece, que estreei em janeiro do ano passado, e I Love Neide, que faço desde março de 2007, ainda vão ficar em cartaz até julho. Já a montagem Quem Matou Maria Helena, que estou fazendo desde outubro do ano passado, acaba dia 8 de maio.

Tem alguma peça que entra no lugar dela?
No próximo dia 9, estreia Cinderela, em que atuo e faço a direção. Já dirigi essa peça durante uns 20 anos. O texto é do José Wilker.  Também vou estrear o monólogo Socorro Vou Ser Pai, e, junto com a Suzy Rêgo, farei a história Até que o Casamento nos Separe. É uma peça atrás da outra, eu não paro de ensaiar!

Só isso?
(Risos) Estou com um texto escrito por Pedro Fabrini. É uma comédia hilária sobre um cara que morre e Deus e o diabo disputando a alma dele. Pretendo estrear em breve. Também estou com o roteiro de uma comédia americana, mas preciso de patrocínio para fazê-la. Saindo um pouco do universo do teatro, tenho vontade de fazer um programa de televisão que discutisse comportamento. Ele chamaria Identidade e teria dois convidados, um terapeuta e plateia. Acho que isso é importante para entendermos toda essa loucura que é a nossa vida.

Ah, a última pergunta… Qual é a sua senha de banco?
De vez em quando, eu esqueço a senha do banco. Mas os textos das peças estão na ponta da língua!

(Se for usar informações deste texto, não esqueça de colocar os créditos e o link)

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