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O nome dela não está em nenhuma parte do programa do concerto, mas ela permaneceu no palco durante toda a performance da violinista Sarah Chang, que veio dos Estados Unidos para a Série Tucca de Concertos Internacionais 2011 – realizada pela Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer – e se apresentou junto ao pianista Andrew von Oyen ontem à noite na Sala São Paulo.

Silvia Molan, 21 anos, bacharelanda em Música – Piano pela ECA-USP, entrou no palco por último –  as estrelas do espetáculo já tinham sido devidamente aplaudidas. Sentou-se ao lado do piano e foi embora quando o público, entusiasmado, pedia bis. Ela trabalhou no concerto como viradora, ou seja, a pessoa que vira as páginas da partitura enquanto o pianista toca.

2011/11/23 - TUCCA Sarah Sang

Durante a apresentação, Silvia fica o tempo todo com o olhar fixo na partitura, ouvindo atentamente Andrew tocar. De tempos em tempos, levanta-se do banquinho em que está, estende o braço e vira uma folha. Senta-se novamente e aguarda até a próxima virada. Assim, o músico não precisa tirar as mãos das teclas, o que implicaria parar de tocar. Silvia contou ao Blog do Curiocidade um pouco sobre essa função:

Quais são os requisitos para ser uma viradora?
Geralmente, esse é um trabalho feito por estudantes de música, já que é preciso compreender partituras. Só dessa maneira dá para saber em que parte da folha está o olhar do pianista e a hora certa de virar. Outra coisa é que precisamos ser imperceptíveis. Subimos ao palco e descemos dele após os aplausos, pelas sombras – sempre carregando a partitura. Durante o concerto, devemos chamar o mínimo de atenção possível.

2011/11/23 - TUCCA Sarah Sang

Antes dos concertos, você precisa ensaiar com os músicos?
Não é obrigatório, mas sempre é recomendável. Ensaiando, você se acostuma ao ritmo do artista, à maneira como ele lê a partitura. Aí fica mais fácil de saber a hora de virar as páginas. Costumamos fazer um ensaio antes do concerto.

O trabalho de um virador é remunerado?
Sim e não. Para grandes concertos, como este, recebemos um pagamento. Só que ninguém é “virador profissional”. Todo estudante de música aprende a tarefa mais cedo ou mais tarde. Quando temos recitais, nos revezamos para virar as partituras dos colegas. Nesta hora, é tudo voluntário, claro.

Não existe um risco de duas páginas ficarem grudadas?
Existe sim. Uma vez, estava virando a partitura para uma professora e pulei uma página. Ela percebeu e, rapidamente, virou a folha por si mesma. Quando um erro desses acontece, temos cerca de dois compassos para resolver. Os músicos costumam decorar as peças. A partitura serve mesmo para lembrá-los das sequências.

Como você faz para evitar esse tipo de erro?
Felizmente, só errei aquela vez. Sempre dou uma esfregadinha na folha com os dedos para me certificar de que não peguei duas de uma vez. É melhor prevenir do que correr o risco de arruinar um concerto.

Por que os pianistas usam viradores, mas os violinistas não precisam deles?
O violino utiliza apenas uma pauta [conjunto de cinco linhas usado para escrever as notas musicais], enquanto a do piano tem duas. Isto faz com que as partituras para piano usem mais folhas do que as de outros instrumentos. Os violinistas podem dispor todas as folhas – três ou quatro, geralmente – lado a lado, de uma maneira que não precisarão virá-las.

A Tucca aproveitou o concerto de Sarah Chang  ontem para iniciar a venda da temporada 2012 do Projeto Música pela Cura.

(Com colaboração de Míriam Castro e imagens de divulgação/Tucca)

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