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Atual campeã do carnaval de São Paulo, a escola de samba Vai-Vai escolheu no domingo o samba-enredo que levará para a avenida no ano que vem. A música começa pelo refrão: “Bixiga é alegria, é bom brilhar”. Bom brilhar, bom brilhar, bom brilhar… Por mais que o nome do patrocinador não apareça explicitamente na letra, o refrão não deixa ninguém esquecer que a Bombril está patrocinando o desfile da Vai-Vai. A escola tem como tema “Mulheres que Brilham – A Força Feminina no Progresso Social e Cultural do País”.

Outra escola de samba com patrocínio garantido para 2012 é a Pérola Negra, que vai levar para o sambódromo o enredo “A pedra que canta também samba. Itanhaém hoje a Pérola é você”. A Pérola está contando com o patrocínio da Prefeitura de Itanhaém, que  está incentivando também a participação de moradores da cidade no desfile. Além disso, a Liga Independente das Entidades Carnavalescas de Itanhaém (LECI) vem  dando transporte gratuito para os ensaios da escola, na Vila Madalena, a 117 quilômetros de distância.

Só mesmo a procura pelos patrocínios, que ajudam a pagar as contas, explica alguns enredos tão estranhos. Mas a ordem é desconversar para que todos pensem que o “homenageado” esteja sendo mesmo homenageado. Para o enredo de 2012, “O Reino dos Justus”, a Rosas de Ouro  garante que não há patrocínio. “Nós já temos algumas negociações em andamento, mas não posso divulgar”, diz  Rene Rodrigues, diretor de marketing da escola. O principal  homenageado do desfile, que vai falar sobre a história e a cultura da Hungria, será o apresentador e empresário Roberto Justus. Rodrigues diz que Justus só “está colaborando com as atividades da escola”, sem confirmar se o apoio inclui dinheiro.

No ano passado, com o enredo “Abre-te Sésamo, a senha da sorte”, a Rosas teve o apoio da China in Box, que forneceu os biscoitos da sorte  distribuídos para o público nas arquibancadas. No ano anterior, o desfile, que teve como enredo “O Cacau é Show”, foi patrocinado pela – óbvio – Cacau Show. A poucas semanas do desfile, a escola precisou mudar uma frase do refrão (de “o cacau é show”, foi para “o cacau chegou”) para que a letra não fosse apontada como propaganda. A escola ficou em primeiro lugar. “Quando escolhemos os enredos, é claro que pensamos naqueles que possam conseguir alguns parceiros”, confirma  Rodrigues.

escola de samba 2

No ano que vem, a X-9 Paulistana fará uma referência direta a uma marca em seu enredo sobre os sertões. O desfile fará alusão ao Rali dos Sertões, da empresa Dunas. Mas, segundo a assessoria de imprensa da escola, o Rali é parte do enredo, e não patrocinador.  “Com essa justificativa, a escola não vai contra as regras”, explica Candinho Neto, especialista em Carnaval e colaborador do Jornal da Tarde. “A Liga não pode barrar um assunto que a escola queira apresentar”. De todo o modo, Candinho acredita que há o patrocínio disfarçado nessa história [leia uma mini-entrevista de Candinho no final do post].

Será que é tão simples  conseguir uma empresa que patrocine um samba-enredo? Algumas escolas garantem que não. A Acadêmicos do Tucuruvi, que tem como tema “O esplendor da África no reino da folia”, continua atrás.  “Se a escola conseguir, vamos  incrementar ainda mais o que estamos preparando”, diz o presidente Hussein Abdo Elselam. “Estamos usando alguns materiais caros, como tecidos”. O presidente da Camisa Verde e Branco, Ribamar de Barros, também está ainda à procura de um patrocinador para o desfile que terá como tema “É o Amor”.  Estreante no grupo especial, a Dragões da Real é outra sem patrocinador. “A gente já sabia que seria difícil encontrar”, diz Adriano Pera, assessor de comunicação da escola, que tem como tema “Mãe, ventre da vida e essência do Amor”. “É um enredo muito abstrato, não tem um fundamento tão específico”, explica Pera. A Gaviões da Fiel, que terá como tema “Verás que o filho fiel não foge à luta. Lula, o retrato de uma nação!”, também ainda não fechou contrato de patrocínio com nenhuma empresa. Mas ter o ex-presidente como chamariz deve facilitar a entrada de dinheiro.

A Mocidade Alegre teve o apoio da mesma empresa por dois anos consecutivos. Em 2010, com o enredo “Da Criação do Universo ao Sonho Eterno do Criador… Eu Sou Espelho e Me Espelho Em Quem Me Criou”, a escola conseguiu o patrocínio da Cebrace Vidros. No ano seguinte, a parceria foi renovada, e a escola levou para o sambódromo o tema “Carrossel das Ilusões”. Para o carnaval do ano que vem, o acordo para renovar o patrocínio com a Cebrace ainda não foi feito. A Mocidade informou que a rotina da escola é cuidar da parte administrativas do próximo desfile a partir de outubro, depois de seu aniversário. O enredo de 2012 será sobre a obra “Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado.

As regras do patrocínio

O Blog do Curiocidade conversou com Candinho Neto, colunista especial do Jornal da Tarde, sobre as regras de patrocínio no carnaval de São Paulo.

Por que o patrocinador não pode aparecer  no dia do desfile?
É uma regra da Liga das Escolas de Samba. A fundação da Liga aconteceu em 1986. Essa regra passou a vigorar já no primeiro desfile, em 1987. As escolas não podiam entrar na avenida com  patrocínio. A empresa pode investir no carnaval da escola, mas na avenida não pode aparecer a logomarca.

 Qual foi a primeira escola a fechar um contrato de patrocínio disfarçado?
A primeira é difícil apontar.  Houve um ano em que a Nestlé fechou um contrato com a Mocidade Alegre. Foi uma das primeiras [Em 2002, a escola teve como enredo o tema “Do Néctar dos Deuses ao Alimento de Homens e Feras – Deleite-se ao Sabor do Leite”, com parceria da Nestlé. Foram R$ 500 mil investidos no desfile pela empresa].

É uma tendência escolher temas que possam atrair patrocínio?
Sim, é uma tendência mercadológica ter um enredo que tenha apelo comercial, ainda que passe pelo cultural. O estritamente cultural não existe mais. O patrocínio acaba contribuindo para que os grandes carros alegóricos e as fantasias mais luxuosas sejam materializadas.

(Com colaboração de Karina Trevizan)

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