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O administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional Mauro Calliari lançou no final do ano passado o livro “Espaço Público e Urbanidade em São Paulo”, pela BEI Editora. Na obra, o autor analisa a relação histórica da cidade com os seus espaços a partir da relevância desses locais e de uma avaliação sobre o que pode ser chamado de um bom espaço público. Entrevistei Calliari no “Manhã Bandeirantes”. Na conversa, falamos sobre os atuais desafios da cidade para melhorar os seus espaços urbanos. Confira alguns trechos:

Mauro Calliari, autor de “Espaço Público e Urbanidade em São Paulo”. (Foto: Divulgação)

O que é um bom espaço público?
É aquele que tem, em primeiro lugar, diversidade. Gente diferente que faz usos diferentes dele. É um espaço fácil de ser interpretado, com relevância histórica e infraestrutura. Precisa ter árvore, lugar para se sentar, segurança, fugir dos barulhos dos carros…

Não estamos falando apenas de parques e calçadões, certo?
Certo. O parque é um lugar para se fugir da cidade. Existem outros espaços onde você usufrui da cidade estando dentro dela. Na rua mesmo. A João Cachoeira (no Itaim-Bibi, zona sul) é um exemplo de como se pode conviver de maneira agradável na cidade.

Como é a relação do paulistano com os seus espaços públicos?
Ao longo do tempo, errática. Durante todo o século XX, essa relação foi abandonada, trouxe medo e chegou ao fundo do poço no final do século. Mas acho que existem hoje sinais de retomada no interesse pelo espaço público. No mundo todo, isso voltou a ser pauta e os espaços estão cada vez mais sendo ocupados, vividos. Cada vez mais gente está disposta a recuperar locais abandonados.

Existe uma relação entre a segurança e a ocupação dos espaços públicos? Mais gente na rua é sinônimo de rua mais segura?
Claro que existem ruas vazias que são agradáveis, mas, em geral, andar por uma rua onde se vê mais gente, dá mais sensação de segurança. E acho que São Paulo está retomando isso. Ao sair do carro e andar na rua, o paulistano está trocando a relação com locais privados pelos locais públicos. Então você anda, por exemplo, na Vila Madalena, com todos os seus conflitos, e sente maior segurança.

Os exemplos mais comuns são esses: Vila Madalena, Jardins, Pinheiros, bairros mais centrais da cidade. Como está esse movimento na periferia?
A periferia possui os problemas da cidade aumentados. Estamos falando de falta de infraestrutura básica. Se no Itaim as pessoas reclamam de calçadas esburacadas, no Itaim Paulista muitas vezes você não tem calçada. É um problema que tem outra dimensão Mas também há ali um vigor pela ocupação dos espaços. Os CEUs (Centros Educacionais Unificados da prefeitura) estão sendo ocupados nos fins de semana. As pessoas usam as piscinas, assistem peças de teatro… Com isso, surgem conflitos naturais desse movimento. Precisamos resolvê-los.

O carnaval de rua vem crescendo muito em São Paulo. Muita gente viu positivamente o fato de as pessoas terem ficado na cidade para brincar nos blocos. Porém, isso gerou justamente um conflito. Os moradores das regiões dos blocos ficaram sitiados, reclamaram do barulho, do cheiro da urina. Como resolver esse tipo de situação?
Em primeiro lugar, é preciso celebrar que exista o conflito. Há 20 anos não existiria nem a percepção de que isso é um problema. O ideal para resolver esse enfrentamento entre quem quer se divertir na rua e quem mora na região é a conscientização. Enquanto isso não acontece, o Poder Público precisa fazer o papel de mediador. Regular, estabelecer normas, ainda que quem queira brincar na rua reclame. Faz parte. O aprendizado de como utilizar os espaços públicos vem aos poucos.

Para o autor, conflitos urbanos serão resolvidos aos poucos. (Foto: Divulgação)

Outra questão complicada envolve as mesas de bares na rua. É algo muito comum no Rio de Janeiro e que vem crescendo em São Paulo. Mas, em alguns lugares, não vem sobrando espaço para o pedestre andar. O que pode ser feito?
Não deveria ser tão difícil. Há uma lei que regulamenta o espaço do pedestre: 1 metro e 20 centímetros. Alguns donos de bares até pintam aquela faixa amarela para delimitar, mas aí as mesas vão sendo levadas para o lado, para o lado, para o lado e depois de um tempo sobram 50 centímetros. Não deveria ser assim. Existem fiscais que precisam ficar atentos quanto a isso. Mas é um tipo de discussão boa porque há algum tempo ninguém estava na rua. Aos poucos, você vai ver clientes colocando a mesa mais para o lado para aumentar o espaço do pedestre.

No livro, você reclama que São Paulo é uma cidade que não tem bancos para as pessoas descansarem. Nos últimos anos a prefeitura implantou os “parklets”, aquelas minipraças colocadas onde antes estavam vagas para carros, com essa finalidade. Porém, em muitos lugares os parklets têm funcionado como mesas de espera em restaurantes. Na sua análise, o projeto foi desvirtuado do seu conceito original?
É preciso dar um crédito porque a ideia é muito recente, mas acho que sim. São Paulo tem um problema com essa questão dos bancos. É absurdo. Em algumas estações de metrô, por exemplo, muita gente fica ali esperando alguém e não tem lugar nenhum para sentar. Quem anda precisa parar um pouco. Em lugares novos, como praças, essa necessidade é ainda maior. No caso dos “parklets”, é uma ideia simpática. Eu estou tirando uma vaga para um carro e estou colocando um lugar para as pessoas se sentarem. De fato em muitos deles virou sala de espera de restaurantes, mas novamente é um problema que se resolve com a lei. Os garçons não podem servir os clientes fora do espaço do restaurante. Alguns donos de bar viram ali uma oportunidade para ampliar o espaço de atendimento, o que não é o melhor uso. Mas ainda é melhor do que não ter nada.

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