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O despertador de Marcos Ono apita pontualmente à meia-noite. Para muitos, o dia está terminando naquele horário. Para Marcos, é hora de começar o trabalho. O caminhão Mercedes 1113, ano 1982, é abastecido com várias espécies de plantas – principalmente as chamadas carnívoras. Às terças e sextas, Marcos percorre os 38 quilômetros que separam seu sítio, em Vargem Grande Paulista, do Ceagesp em 50 minutos no mais absoluto breu. Quando chega ao destino, ele coloca cuidadosamente os vasinhos com as carnívoras em cima de uma mesa, e espalha algumas outras pelo chão. O proprietário do boxe 57-A, que fica na coluna 49, vende suas plantas no Ceagesp desde 1991 e é o colecionador mais famoso de carnívoras no Brasil.

Marcos Ono, o dono da maior loja de carnívoras de São Paulo

Marcos Ono, o dono da maior loja de carnívoras de São Paulo

A loja de Marcos possui apenas 10 metros quadrados. As carnívoras custam de 5 a 25 reais, dependendo da espécie e do tamanho, que pode variar de 4 cm até 60 cm. “Este não é o melhor período das carnívoras”, avisa. “Elas crescem e ficam bonitas no verão.” Mesmo assim, cerca de 500 curiosos passam diariamente para ver as carnívoras de Marcos e tirar dúvidas. “As pessoas têm medo das carnívoras”, conta, aos risos. “Sempre perguntam: ‘certeza que elas não mordem?”. O médico José Maurício Piliackas, mestrado em plantas carnívoras pela Universidade de Guarulhos, esclarece: “A carnívora não consegue comer um dedo humano porque não tem força suficiente para fechar a armadilha e a digestão é feita de 5 a 7 dias – ninguém ficaria com o dedo lá dentro por tanto tempo”. Elas gostam mesmo de pequenos insetos, que ficam grudados em seu interior até que a planta se feche e se alimente.

Marcos Missao Ono, 51 anos, é filho do japonês Masaobo e da nissei Misako. Herdou do pai, colecionador de orquídeas, a paixão pelas plantas. Quando tinha 16 anos, “chorou por 2 semanas” para ganhar sua primeira carnívora. “Foi amor à primeira vista”, afirma o dono da então solitária dioneia – nomenclatura de uma das 750 espécies de carnívoras existentes no mundo. Buscando instigar a paixão do filho por plantas, Masaobo o presenteou com o livro “O Mundo das Plantas Carnívoras”, lançado exclusivamente em japonês pela editora Garden Life. Além de mostrar todas espécies, o exemplar trazia endereços para trocas com colecionadores ao redor do mundo.

Algumas carnívoras da loja de Marcos Ono, no Ceagesp

A mesa com as carnívoras recebe até 500 clientes por dia no Ceagesp

A primeira troca aconteceu em 1980, antes de Marcos ingressar no curso de Agronomia – ele se formou em 1986 pela Universidade Federal de Viçosa (MG). Naquela época, no Brasil, a nephentes – espécie de carnívora – estava em falta. Para um alemão, as droseras eram muito desejadas. Marcos não teve dúvida: colheu inúmeras droseras nas encostas da Rodovia dos Imigrantes e as enviou ao alemão. “Eles têm plantas que eu não tenho, comuns em seu países, mas que para mim são raras”, explica Marcos, que já fez 100 trocas com estrangeiros. Sua rede de “carnívologos” tem 3000 nomes, sendo um terço de brasileiros.

Numa dessas trocas, Marcos conseguiu o exemplar mais raro entre as 150 espécies que possui: a nephentes rajah. Essa planta, originária de Bornéu, na Malásia, é considerada super-rara pelos colecionadores. É a que mais se assemelha à carnívora Audrey II, do filme “A Pequena Loja dos Horrores”. Sua armadilha possui 30 cm de diâmetro – a maior entre todas carnívoras. Marcos guarda o xodó em seu sítio de 4 hectares, onde vive com a mulher, Márcia, e seus três filhos.

A "super-rara" nephentes raja e a carnívora Audrey II - calma, ela não fica assim

A “super-rara” nephentes raja (em imagem da internet) e a carnívora Audrey II. Calma! Elas só ficam assustadoras assim no cinema

Marcos produz anualmente de 5 mil a 10 mil mudas de cada uma das 150 espécies que possui. “Vendo 7 mil dessas carnívoras pequenas por mês”, garante. Ano passado, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro comprou 5 mil reais em plantas”, contou o agrônomo, que mal sabe que a última moda num bar paulistano é um drinque enfeitado com uma plantinha carnívora, criado no final do ano passado. “A planta é usada para estilizar o copo”, explica Herbie Ramos, diretor criativo do Help!bar, em Pinheiros. “Nós colocamos açúcar mascavo embaixo para parecer terra. Tomamos cuidado em higienizar as plantas. Os clientes ficam espantadas e sempre explicamos que elas não são comestíveis”. A inspiração de Herbie veio do restaurante Dry, de Barcelona, do chef Javier de las Muelas. “Ah, e ainda tem um mais estranho: o drinque que leva uma pena de galo”.

No paulista Help!bar, a moda é o drink de carnívoras

No paulista Help!bar, a moda é o drinque enfeitado com uma planta carnívora

Serviço
Marcos Ono
Boxe 57-A, coluna 49, do Ceagesp (Av. Dr. Gastão Vidigal, 1946 – Vila Leopoldina
Terça e sexta, das 3h às 10h30
Telefone para contato: (11) 99103-7807

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