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Assistir a um filme pelo parabrisas e transformar o banco do carro em espaço para, hum, namorar. Assim eram os autocines, que fizeram algum sucesso na cidade nos anos de 1970 e 1980. Além dos filmes, os autocines ofereciam também serviço de lanchonete. Para chamar o garçom, bastava acender a lanterna do carro. Mas o enredo do filme não era necessariamente o que atraia o público, que procurava esse tipo de estabelecimento com outra finalidade. Tanto que um dos costumes dos atendentes era dar uma “tossidinha” indiscreta antes de se aproximar dos carros, para evitar flagras picantes de casais dentro dos carros.

Chaparral

Tela de projeção do Snob’s. (Foto: Oswaldo Palermo/AE)

Um dos mais famosos autocines de São Paulo foi o Chaparral, que ficava no número 2 000 da Avenida Condessa Elizabeth Robiano (Marginal Tietê, no bairro da Penha). No local, funciona hoje um posto de inspeção da Controlar. O Chaparral iniciou suas atividades em junho de 1971. Pertencia às famílias Ciongoli e Basile. A ideia foi de José Sante Ciongoli, que trabalhava como gerente em um cinema no bairro da Penha. Ele conheceu os autocines durante uma viagem aos Estados Unidos. De volta ao Brasil, fez a proposta ao amigo Nuncio Basile para abrirem um estabelecimento nos mesmos moldes. José entrou com a ideia e Nuncio, com o dinheiro. Os dois fecharam o acordo e chamaram os irmãos para entrar também na sociedade. O resultado foi que o negócio foi aberto com treze donos, sendo seis da família Basile e sete da Ciongoli. José faleceu em 2008, aos 88 anos, e Núncio em 2009, aos 75.

O Chaparral tinha capacidade para quase 500 carros, e estava sempre lotado. Seis garçonetes vestidas de cowgirl (com direito a chapéu, bota e colete de franjinha) atendiam aos espectadores, servindo bebidas, doces e pipoca. O negócio funcionou por mais de dez anos, até meados da década de 80. Nesio Carlos Costato Basile, que tem 82 anos e é irmão de Nuncio, conta que as famílias perderam contato depois do fim do Chaparral. Sobre o autocine, ele acredita que sabe qual foi a causa do fracasso do cinema: “As pessoas iam para namorar, mas meu irmão colocava um lanterninha que batia no vidro”, conta. “Ele não deixava namorar dentro do Chaparral, era para assistir ao filme. Então começou a perder a freguesia e fechou”, afirma ele.

Embora tenha sido o mais famoso, o Chaparral não foi o primeiro autocine de São Paulo. Em 1968, foi inaugurado na Avenida Santo Amaro o Snob’s Auto Cine, o pioneiro da cidade, com capacidade para 260 carros. A entrada para os automóveis ficava na Rua 15 de Novembro, paralela à avenida. Havia campainhas para chamar os garçons, e os auto-falantes podiam ser instalados dentro dos carros para que os clientes controlassem o volume do som. A tela de projeção ficava fixada sobre uma parede feita de cimento armado, e tinha a altura de um prédio de 4 andares, com 8,5 metros de largura por 20 de comprimento. Era oferecido até um líquido especial para ser passado no parabrisas, com o objetivo de evitar que os vidros ficassem embaçados. O proprietário era o piloto Eduardo Selidônio, que conheceu o modelo de cinema ao ar livre nos Estados Unidos, em 1966. Lá, eram conhecidos como drive-in. Como Eduardo não gostava do nome, resolveu rebatizar com um termo mais brasileiro e definiu o Snob’s como um autocine. No livro Salas de Cinema em São Paulo, a autora Inimá Simões lembra que havia também mecânicos de plantão para atender a quem tivesse algum problema com o carro, além de uma área especial para acomodar clientes que chegassem a pé. O cinema funcionou até 1990.

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Inauguração do Snob’s (Arquivo Estado)

Depois do Snob’s veio o Moon Auto Cine , inaugurado em março de 1970 na Avenida Interlagos. Tinha 500 lugares disponíveis, cada um com um auto-falante próprio. Um pizzaiolo atendia àqueles que quisessem lanchar durante a sessão. O proprietário era Mário Paes da Fonseca, falecido em 2000, aos 78 anos. Olívia Antunes da Fonseca, de 59 anos, viúva de Mário, conta que o marido gostava muito do trabalho no cinema. “Ele só falava bem dos filmes, da clientela”, lembra. O metalúrgico Claudio Borges, hoje com 59 anos, trabalhou como operador de filme e lanternina no Moon entre 1971 e 1975. Ele conta que Mário não se incomodava com o namoro dentro dos carros. “Ele deixava as pessoas à vontade”, afirma. Mesmo assim, os funcionários repreendiam quem namorava dentro do carro, e tinham uma razão especial para isso: ganhar uma “caixinha”. “A gente ficava passando, só para incomodar, e pedia um dinheirinho para deixar os casais em paz”, confessa.

Quem também passou por apuros no Moon foi a advogada Regina Suffi. Ela gosta de contar uma saia justa que teve que enfrentar nos anos 80. Ela conhecia alguns autocines de Nova York, onde os cinemas ao ar livre eram programa de família, e achou que os de São Paulo seriam parecidos. Resolveu, então, levar seus seis filhos para assistir a um filme e comer lanches com refrigerante no carro. Até que uma das crianças perguntou por que o casal do carro ao lado não prestava atenção no filme e estava ficando sem roupa. O passeio terminou e foram todos para o Parque do Ibirapuera.

Em 1976, o Moon Auto Cine virou o Motel Auto Moon. Ficava no mesmo endereço. Olívia conta que o marido achou que, como o lugar era conhecido dos casais, a mudança poderia fazer sucesso. Em 1980, Mário oficializou a união com Olívia, fechou o motel e comprou um sítio em Sorocaba (SP). Passou a alugar o espaço para festas. “Ele mudou de ramo porque tinha uma certa idade e queria descansar”, conta ela.

 

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