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Tem sido assim todos os domingos. Dezenas de pessoas se aglomeram em volta do Planetário Professor Aristóteles Orsini, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Crianças e adultos estão com celulares em punho e pose de caçador. A invasão começou logo depois que o aplicativo Pokémon Go foi lançado no Brasil, em 3 de agosto, e transformou o parque mais famoso de capital paulista também no pokéstop mais cobiçado da cidade. E, dentro do Ibirapuera, o entorno do planetário é o local mais concorrido. “Os programadores privilegiam parques e pontos turísticos das cidades”, explica o jornalista Cláudio Prandoni, especialista em games e autor do livro “Pokémon Go de A a Z”. “Como o Ibirapuera é muito grande e tem muitos pontos turísticos, é natural que seja um local bom para se jogar”.

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Os irmãos Rodrigo e Marcelo vieram de Piracicaba e levaram de lembrança uma pelúcia do Pikachu vendido por um ambulante. Ao fundo, dezenas de caçadores em ação

Paraíso dos jogadores que veem no local a chance de conseguir capturar alguns dos mais raros monstrinhos do game, o Parque do Ibirapuera recebe de braços abertos a novidade. Pelo menos é o que garante Teodoro Lima, vendedor de água mineral e  de água de coco, que está na frente do planetário há 30 anos: “Meu movimento aumentou 80%. Se já estava bom, agora ficou melhor. Nunca vendi tanto”. O comércio informal também aparece com força. Trajando camisetas pretas e bonés da mesma cor, os ambulantes oferecem bonecos de pelúcia (R$ 20), bonés (R$ 25) e chaveiros (R$ 10) dos personagens do jogo de maneira discreta. São ainda mais discretos quando abordados pela reportagem: “Desculpa, mas não posso me identificar nem tirar foto porque não poderia estar aqui vendendo. Desculpa, de verdade”, diz um, visivelmente constrangido. Quando perguntado sobre o sucesso das vendas, porém, deixa escapar que “dá para tirar um dinheiro bom, sim”. Mais adiante, outro colega confirma: “Só vim pra cá depois do sucesso do jogo”.

Os irmãos Rodrigo e Marcelo terminaram a caçada com um boneco de pelúcia do Pikachu e um chaveiro do Ash, dois dos mais famosos personagens de Pokémon: “Viemos de Piracicaba, a 150 km de distância, para visitar meus pais e aproveitamos para vir ao parque”, explica Ricardo, pai de Rodrigo e Marcelo. “É um dos melhores lugares para jogar. É a segunda vez que viemos aqui”.

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Os alertas aos “Mestres Pokémon” foram colocados nas janelas do planetário

Um dos produtos que faz mais sucesso é o carregador portátil. Como alguns dos jogadores passam horas e horas dentro do parque, não há bateria de smartphone que aguente. Mais uma boa notícia para os discretos e irregulares vendedores, que oferecem uma variedade interessante de modelos de carregadores. Eles custam de 50 a 130 reais e proporcionam de duas a quatro recargas completas  – o valor pode ser pago no cartão de crédito e débito. Quanto mais as horas avançam, mais se veem os celulares acompanhados dos fios brancos contatados a uma pequena fonte de alimentação.

Observar o fenômeno do jogo é muito curioso. Basta o primeiro e anônimo grito de “Tem um Gratini lá!” para que quase todos disparem em uma correria maluca de 100 metros até o Lago do Ibirapuera em busca do monstro de nível 198. As árvores e a pequena ciclofaixa que separam os dois lugares dividem também o perfil dos visitantes: de um lado, os jogadores; do outro, as toalhas de piquenique, os corredores sem camisa, os ciclistas e os que apenas observam tudo. Quando o primeiro grupo “invade o território” do segundo, dá para ouvir perguntas do tipo “o que é isso?”, “por que está todo mundo correndo assim?”, “o que aconteceu?”. Um corredor que interrompeu o exercício para tentar entender a estranha movimentação reagiu à resposta que recebeu com um silêncio de mais ou menos cinco segundos, seguido de um ainda confuso “ah, é? Nossa…”.

A “ocupação” dos gamers dura não mais de cinco minutos e gera reações diversas. Correndo apressados, dois amigos festejam: “Peguei um Gratini!”. Um tanto decepcionado, um outro, logo atrás, lamenta: “Era só um Gratini…”. Antes que voltassem todos para o planetário, a reportagem “capturou” os gêmeos Enzo e Lucca Roveda, cujos capacetes de ciclista indicam que o passeio foi além da caçada. “Nunca vi tantos pokéstops juntos”, comemora Enzo. “Vi que estava todo mundo vindo pra cá e viemos também”, completa Lucca. Quando outro monstro é encontrado na região do Planetário, eles ficam divididos entre a reportagem e o jogo. Optam pela primeira, resistem em correr e só partem, apressados, quando liberados sob a promessa de que seriam reencontrados mais adiante. Ao ver a correria, o pai, Artur, solta uma gargalhada: “Que barato essa gente toda aqui!”.

Enzo, Artur e Lucca durante a caçada no Ibirapuera

Enzo, Artur e Lucca durante a caçada no Ibirapuera

Quem não acha tanta graça assim, por outro lado, é o próprio planetário. “A aglomeração aí na porta aumentou muito, mas a visitação aqui dentro continuou a mesma coisa”, afirma o monitor Osias Bento Natalete. De fato, a presença na entrada se resumia a um pequeno grupo de escoteiros e outros poucos visitantes. Ao meio-dia, hora de uma das sessões, a fila na bilheteria não era grande. O curioso é que justamente nos vidros do planetário que se encontram os únicos avisos destinados aos jogadores no Parque do Ibirapuera: chamados de “mestres Pokémon”,  eles são alertados, entre outras coisas, para não andarem de bicicleta enquanto jogam e não usarem as tomadas do parque. Na esperança de conseguir também “capturar” os jogadores, no rodapé do aviso aparece Charizard, um dos monstros da série, com um balãozinho no estilo revista em quadrinhos com um convite: “Confira a nossa programação em www.prefeitura.sp.gov.br/planetarios”. Por enquanto, os pokémons é que são as únicas estrelas.

(Com reportagem e fotos de Leonardo Dahi)

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