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Grupos de manifestantes que depredam bens materiais para chamar a atenção de autoridades para problemas sociais já atuavam em São Paulo bem antes de serem batizados de “black blocs”. A Folha da Manhã de 2 de agosto de 1947, um sábado, dedicou sua página de capa completa à “intensa agitação no centro” provocada pela depredação de bondes e ônibus da CMTC. O motivo? A revolta do povo contra o anúncio de um aumento do preço das passagens – o mesmo que desencadeou a onda de manifestações que tomou conta da cidade em junho do ano passado e que até hoje se mostra latente em São Paulo e outras metrópoles do país.

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Os protestos de agosto de 1947 concentraram-se no centro da cidade. No Largo São Francisco, uma multidão tomou posse de um bonde e de um ônibus. Com o uso de paus e guarda-chuvas, os manifestantes quebraram os vidros, arrancaram as cortinas e os letreiros, destruíram a caixa de controle e o motor e incendiaram os veículos. O prédio da Prefeitura, que abrigava a sede da CMTC, também foi alvo de ataques: populares que conseguiram invadir o local depredaram móveis e rasgaram documentos. Dispersados por policiais munidos de cassetetes, morteiros e pistolas, desceram pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, continuando a depredação de todo bonde e ônibus que encontravam pelo caminho. Trinta pessoas sofreram ferimentos leves e foram encaminhadas a postos médicos. Um policial foi ferido no rosto por uma pedra.

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Para conter a revolta, a Prefeitura retirou de circulação todos os veículos públicos e ordenou o fechamento do comércio. O aumento dos preços não foi revogado. O governador Ademar de Barros fez um pronunciamento público no rádio, repudiando a violência, lamentando o prejuízo causado à CMTC e defendendo a manutenção do aumento das tarifas, que contribuiria para uma melhora na infra-estrutura do transporte público. Fez uma promessa arrojada: “Os paulistanos vão ver, pelo material que temos encomendado, que irão acabar as filas do transporte”. E provocou os manifestantes: “Estamos convencidos de que esse movimento tem outro objetivo: perturbar a ordem pública”. O Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, entidade estudantil mais antiga e tradicional do país, ficou em cima do muro: “Apesar de sermos contra o aumento das tarifas, não apoiamos as depredações”.

Pelo diretor da CMTC, os manifestantes foram chamados de “mazorqueiros”, equivalente arcaico para “baderneiros”. O secretário de segurança, tenente-coronel Flodoardo Maia, garantiu que não era o povo paulistano que estava metido em “arruaças”, mas um “grupo organizado de agitadores”. Pela posse de instrumentos de depredação, a polícia prendeu 50 “elementos agitadores”. O antigo nome dos “black blocs” pode ser menos cativante, mas é mais coerente. A expressão “black bloc”, originalmente, designa uma tática militante de autodefesa criada nos anos 80 pela esquerda europeia, e não um grupo organizado e articulado.

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