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Pão árabe, queijo mussarela coberto por zatar, rosbife e tomate. Nada de presunto, ovo, alface e maionese. O beirute foi criado em São Paulo no ano de 1951 pelo imigrante  libanês Fares Sader. Ele era sócio do restaurante Bambi, na Alameda Santos, entre as ruas Cubatão e Rafael de Barros. “Ele quis homenagear o Líbano. Por isso, usou pão árabe e batizou o sanduíche com o nome da capital”, diz Nazima Sader, viúva do criador do beirute.  No Líbano, os pais de Fares vendiam chocolates e doces sírios. Quando faleceram, na época da Segunda Guerra Mundial, o filho deixou o país de navio. Morou na Venezuela e depois no Uruguai até desembarcar no Brasil em 1947.

Em São Paulo, ele procurou alguns de seus parentes: o irmão Louis, que tinha vindo diretamente para o Brasil, e Sabina Sader, também da família e mãe de Nazima. Esta logo se tornou namorada do recém-chegado, com quem casou em 1955 e teve três filhos: Mônica, Marina e Maurício.

Louis abriu o Bambi em 1951. Fares entrou como sócio pouco tempo depois. Em seguida, criou o célebre sanduíche e a sobremesa chocolamour, que não tinha esse nome. “Não tinha nada  a ver com ‘amor’”, afirma Mônica Sader. “Meu pai escolheu ‘Chocolat Mou Mud’ para misturar palavras francesas e inglesas”. Mou, em francês, é “suave”, e mud quer dizer “lama”. É uma referência à aparência cremosa do doce, que leva sorvete com calda quente de chocolate, chantilly e farofa adocicada. Com o tempo, as palavras se misturaram, mudando o nome da sobremesa.

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Fares e Nazima na inauguração da segunda unidade do Bambi (foto: acervo pessoal)

A farofa do chocolamour é uma receita secreta inventada por ele. “Não revelo nem morta, é um segredo da família”, diz Mônica, que prepara e vende o quitute sob encomenda para festas. Ela é procurada por antigos fãs dos restaurantes do pai. “Apenas o verdadeiro chocolamour tem essa farofa”, garante. “É ela que dá o toque especial e deixou esses clientes com saudade”. O sucesso das receitas de Fares aumentou o movimento no restaurante da Alameda Santos, que não comportava mais tantos clientes. A solução foi a inauguração de outra unidade na casa em frente, em 1956.

Os dois irmãos entraram numa nova sociedade em 1960:  o restaurante Flamingo, que tinha também uma cozinha árabe influenciada por tendências internacionais. Lá também começaram a ser servidos pratos que tornaram o Bambi famoso, como o beirute e o chocolamour. Depois da morte do marido, em 1970,  Nazima  assumiu o comando do Flamingo. O negócio fechou em 1983, por causa de problemas com o dono do imóvel.

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Fachada do novo Bambi, no Itaim (foto: divulgação)

O fim do Bambi, em 2001, foi semelhante. Bem quando completava 50 anos de existência, o restaurante fechou nas mãos de Edgard Louis Sader, que herdou o local com a morte do pai, Louis, em 1990. “Brigamos com o proprietário do imóvel por mais de dez anos, até que finalmente tivemos que sair”, afirma. Edgard só reabriu o negócio em 2009, na Rua Jorge Coelho, na região da Cidade Jardim.

A nova decoração tem até uma porta de madeira importada do Marrocos. Porém, o mais importante é que o beirute e o chocolamour são vendidos assim como Fares Sader concebeu suas receitas: a sobremesa é servida em um copo idêntico ao utilizado nos primeiros anos do Bambi.

(Com colaboração de Míriam Castro)

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