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A abertura do estacionamento da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para o público em geral nos finais de semana fez muitos paulistanos descobrirem e se surpreenderem com um pequeno museu. Um, não. Na verdade, dois museus. O primeiro fica a céu aberto no estacionamento e no jardim da casa. Dá para ver desde o realismo de Christina Motta até as cores de Romero Britto. As esculturas têm placas que identificam o artista e a data. Estão ali por serem grandes demais para ficarem hospedadas no interior do prédio. E é justamente dentro do Palácio 9 de Julho, nome oficial do prédio da Assembleia, inaugurado em 25 de janeiro de 1968, que fica o segundo museu.  O local tem 1 438 obras catalogadas espalhadas por seus 36 mil metros quadrados.

O Acervo Artístico da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo foi criado oficialmente em 2002. Até 2013, ele ficou aos cuidados do historiador, jornalista e crítico de arte Emanuel Von Lauenstein Massarani, que tinha o cargo de Superintendente do Patrimônio Cultural da Assembleia Legislativa. Procurado pela reportagem, Massarani disse que estava passando por tratamento médico e que não poderia dar entrevista. Com o seu desligamento, a responsabilidade pelo acervo ficou a cargo da Secretaria da Administração. A reportagem teve dificuldade em descobrir o nome do novo responsável. Foi um jogo de desinformação até chegarmos à assessora parlamentar Vitória Frugolli. “Muitas delas são de artistas que fizeram exposições na casa e quiseram deixar alguma aqui conosco”, explica Vitória. “Outras são presentes de diferentes instituições, como Circolo Italiano de São Paulo e Banco Sudameris”.

Na visita ao interior do prédio, o São Paulo para Curiosos encontrou algumas obras bem curiosas. A escultura “O Caixeiro Viajante”, do ítalo-brasileiro Domenico Calabrone, já passou por três endereços antes de chegar à Assembleia: Avenida Paulista; sede da Federação do Comércio do Estado de São Paulo; e Sesc Interlagos.

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Uma coroa de ouro escavado está no saguão do segundo andar. Ela é réplica de uma coroa de um antigo rei de Silla, um dos três reinos que formaria depois a Coreia. Em 1973, a coroa foi descoberta junto a vários brincos, pulseiras, colares – itens tradicionais da cultura coreana da época.

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Instalada no salão Orlando Villas-Boas, a tela “Paz!” utiliza areia das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, destruídas pela bomba atômica em 1945, e também de Santos, no litoral paulista.  Foi feita pelo artista plástico Kaoru Ito, residente em São Paulo e sobrevivente de Nagasaki. O quadro foi encomendado pela Associação Hibakusha-Brasil pela Paz em celebração aos 120 anos de amizade entre o Brasil e o Japão e à lembrança dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.

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No segundo andar, Wagner Pedro Ribeiro, seguidor da “recuperation art”, faz do lixo material para seu trabalho. O artista, que montou uma exposição na casa em 2012, deixou como lembrança “O seringueiro”, produzido com sucata de metal – pedaços de peças automotivas, torneiras e bicicletas. Detalhe: Wagner não usa solda, apenas parafusos.

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Outra curiosidade: uma reforma recente na Assembleia impede que quadros sejam pendurados nas paredes de alumínio. Por isso, o visitante encontra quadros expostos em cavaletes no saguão de entrada, esperando que algum deputado o adote e o leve para seu gabinete.

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Quadros em cavaletes espalhados pelo saguão à espera de um deputado de bom coração

Ao contrário do que acontece no museu a céu aberto, o público não tem acesso a todas as obras do interior do prédio. A sala de reunião que antecede o Plenário Juscelino Kubitschek, por exemplo, é uma área restrita que contém cinco quadros e três esculturas. O mais curioso de todos os espaços é a Galeria dos Presidentes, que abriga 58 retratos de ex-presidentes da Assembleia. Ela permanece fechada o tempo todo e com a luz apagada para que as obras não sejam danificadas. A cada novo presidente, um artista é escolhido por licitação e a sala abre as portas para a cerimônia de recebimento do quadro.

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“Galeria dos Presidentes” tem 58 retratos e fica no escuro quase o tempo todo

A ALESP tem um pátio destinado a exposições temporárias, que costumam durar duas semanas. Artistas como Jane Arroyo, Bantu Tabasisa e Paulo Caruso já tiveram suas obras expostas no local. Há também um antigo projeto para a transformação de uma área do Palácio 9 de Julho num centro cultural, em parceria com a Universidade de São Paulo. Não se sabe quando ele sairá do papel. No momento, o atual presidente da Assembleia, Fernando Capez, está preocupado em se defender numa CPI instalada na casa. Ele é acusado de ter feito arte com a merenda escolar.

(com fotos de Gabrielli Menezes)

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