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“Comprei ingresso para o cinema”, disse Marina Machado, ao ser interpelada por um policial que bloqueava a entrada da Rua Turiassú para quem vinha pela Avenida Antártica no domingo passado. A jornalista tentava chegar ao Shopping Bourbon para a sessão das 17h10 do recém-estreado filme de Bob Esponja. “Vá outro dia”, recomendou o policial, dando-lhe as costas. Desolado no banco de trás, o pequeno Lucca, de 3 anos, viu o pai, Tiago, dar a ré e voltar  para casa. O motivo do bloqueio foi a briga entre torcedores do Palmeiras e policiais na rua da principal entrada do shopping, com direito à bombas de efeito moral e lançamentos de pedras e garrafas. “Enquanto o estádio estava em reforma, era uma maravilha”, lamenta Marina. “Hoje, em dia de jogo, não tem como vir”. Entre lojistas e consumidores, há um consenso: quando o Palmeiras joga no Allianz Parque, o trânsito fica impraticável nos arredores do estádio, o estacionamento do shopping lota e o público some.

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Shopping Bourbon e Allianz Parque estão separados por 160 metros

A gerente da loja de sapatos Santa Lolla sabia dos riscos do clássico e instruiu seus funcionários a deixarem a chave em local de fácil acesso, caso precisassem fechar as portas rapidamente. “Os torcedores organizados afugentam a clientela”, conta Joyce Rosales, atendente da Santa Lolla. “Eles fazem muito tumulto, gritam palavrões pelos corredores”. Muito antes da reinauguração do estádio, o shopping já exibia placas mostrando que é proibida a “circulação de torcidas organizadas, portes de bandeiras e similares”. O aviso não surtiu efeito. A atendente da Santa Lolla estava domingo na loja e diz que escutou os barulhos das explosões, mas não sentiu os efeitos das bombas de efeito moral.

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Placa colocada pela administração do shopping que proíbe a entrada de torcedores

Apesar de registrarem que a segurança é reforçada em dias de jogo, os lojistas afirmam que há um clima de insegurança para quem trabalha nas lojas. No dia do clássico, um cliente com a camisa do Corinthians tentou entrar no shopping, mas foi retirado pelos seguranças.“O preparo dos seguranças é péssimo, eles deveriam passar tranquilidade, mas apenas pioram as confusões que acontecem entre os torcedores”, afirma Thaiane Zonta, gerente da Prego. “Nós temos medo dos torcedores”, diz a gerente da rede de farmácias Drogasil, que preferiu não se identificar.

(Foto: Leonardo Benassatto/Futura Press)

Palmeirenses e policiais entraram em confronto próximos à entrada do Shopping Bourbon (Foto: Leonardo Benassatto/Futura Press)

Uma das reclamações dos clientes é o trânsito que se forma ao redor do centro comercial, já que a principal entrada do local é na mesma rua em que se concentra a maioria dos torcedores palmeirenses. Aqueles que conseguem realizar a proeza de chegar enfrentam dificuldades para estacionar o carro. A garagem do Shopping Bourbon, que comporta 3.010 veículos, é utilizada pelos torcedores que vão ao Allianz Parque, estádio com capacidade para 43.600 pessoas. Com todos esses problemas, as gerentes da Santa Lolla e da Contém1g calculam que seus clientes diminuíram entre 70% e 80% em dias de jogo. “O jeito é fechar o shopping quando o Palmeiras joga”, reforça Patrícia de Assis, gerente da Contém1g. “Não vendemos mesmo, então é melhor não passar por apuros”. Procurada pela reportagem do blog, a administração do Shopping Bourbon não quis comentar o assunto.

Outros shoppings vizinhos de estádios passam por situações parecidas. Na quarta-feira passada, o expediente de Edvaldo Laurentino, gerente da Besni do Shopping Metrô Itaquera, terminou bem na hora em que os torcedores chegavam para Corinthians x Once Caldas, a 800 metros dali, na Arena Corinthians. “Demorei mais de uma hora e meia para conseguir sair do estacionamento”, conta. “Em dias de jogo, além do caos pelos corredores, nunca atingimos a meta de vendas do dia”.  No Shopping Butantã, os problemas são menores porque 2 quilômetros separam o centro comercial do Estádio do Morumbi, do São Paulo. “Não tem alteração na rotina do shopping porque os torcedores não vêm em massa”, explica Felipe Ganda, atendente da loja Chilli Beans. A loja que sofre mesmo é a Poderoso Timão, que vende exclusivamente produtos com a marca do rival Corinthians. “Torcedores organizados passam xingando e temos medo até de sair para ir ao banheiro”, relata o gerente Thiago Mendonça. “Já cuspiram em uma camiseta da vitrine e ameaçaram bater em uma funcionária”.

 

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