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Começaram hoje as partidas finais do 4º Grand Slam de Xadrez São Paulo-Bilbao, no Parque do Ibirapuera. Até sábado, seis enxadristas estarão na briga pelo título: o indiano Viswanathan Anand (atual campeão do mundo de xadrez e segundo do ranking), o norueguês Magnus Carlsen (primeiro do ranking), o armênio Levon Aronian (terceiro do ranking), o ucraniano Vassily Ivanchuk, o norte-americano Hikaru Nakamura e o espanhol Francisco Vallejo. As três partidas de hoje começaram às 15h. Os jogos acontecem dentro de uma sala de vidro de 65 m², com paredes duplas vedadas nas juntas, que garantem o completo silêncio para os jogadores. Além deles, três outras pessoas podem entrar na sala durante as partidas: os árbitros.

O chefe da arbitragem é Herman Claudius Van Riemsdijk, 63 anos. Nascido na Holanda, ele veio para o Brasil aos 10 anos e se naturalizou brasileiro. Mestre Internacional de xadrez desde 1977 e árbitro internacional há 3o anos, Herman acumula títulos importantes no esporte: foi sete vezes campeão paulista, três vezes campeão brasileiro e campeão pan-americano. Já representou o Brasil em 9 torneios Zonais, 2 Interzonais e em 12 Olimpíadas. Fez parte da Comissão de Regras da Fide (Federação Internacional de Xadrez) e foi presidente da Federação Paulista de Xadrez e do Clube de Xadrez São Paulo. Minutos antes de começar as partidas de hoje do Grand Slam, Herman contou ao Blog do Curiocidade como é o trabalho de um árbitro de partidas de xadrez.

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O que o árbitro não pode deixar que aconteça durante a partida?
Algum comportamento impetuoso do jogador, como fazer barulho, gesticular ou bater na mesa. Vez ou outra, isso acontece. Às vezes é involuntário. O jogador pode ter várias moedas no bolso e fazer barulho quando se mexe, por exemplo. Aí o árbitro precisa  chamar a atenção. A função do árbitro é quase administrativa. Deve zelar pelo bom estado da sala e do jogo.

Só isso…  Nunca há qualquer tipo de discussão entre os jogadores?
Podemos ter problemas com o relógio. Os jogadores precisam fazer 40 jogadas em duas horas. Se algum não completa esse tempo, o árbitro tem que intervir e avisar que ele perdeu. Pode acontecer também um possível conflito ou algum pedido de autorização para propor empate. Mas o problema mais comum é o relógio mesmo.

Como você se tornou árbitro?
A Federação Internacional de Xadrez (Fide) me concedeu o título de árbitro. Hoje, a Confederação Brasileira precisa fazer um pedido para a Fide conceder o título. Mas faltam árbitros bons. É um assunto delicado…  O candidato precisa ter conhecimento técnico e  capacidade de lidar com pessoas conflitivas. É preciso administrar esse tipo de coisa, saber contornar situações…

Enxadristas costumam questionar muito as decisões dos árbitros?
Os que conhecem bem as regras, não. Quanto mais alto o nível técnico dos jogadores, menos problemas o árbitro tem. Aqui (no Grand Slam), todos são profissionais e sabem as normas. Mas jogadores amadores querem jogar, muitas vezes, sem conhecer as regras.  Pense agora no futebol.  Quantos jogadores conhecem bem as regras? Poucos. No xadrez é a mesma coisa.

Como chefe dos árbitros, como você controla três partidas ao mesmo tempo?
Tenho dois árbitros auxiliares. Eles têm condições de fazer a checagem do tempo. Se houver alguma situação mais conflitiva, eles me chamam e eu troco de mesa. Mas os jogadores que estão aqui não são conflitivos.

O árbitro pode  conversar com os jogadores antes dos jogos?
Pode, sim. Converso com eles antes, fazemos até refeições juntos. Não tem nenhum segredo. É só saber separar bem. Temos relações de amizade, já joguei com alguns inclusive. O [indiano] Anand, por exemplo, eu conheço desde 1984. É a quarta vez que vou arbitrá-lo. Já joguei com ele uma vez, em 1990, em Amsterdã. Lembro da partida inteira, sou capaz de refazer cada jogada no tabuleiro. Só não me pergunte o resultado da partida…

Qual foi o resultado da partida?
Ele ganhou!

(Com colaboração de Karina Trevizan)

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