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“Vocês vão vir ou vão ficar aí?”, diz um membro de apoio aos aspirantes a artistas, que estão esperando pelo ensaio na lanchonete. “Só tomem cuidado para não atropelar ninguém!”. Pela porta, passam duas dezenas de apressadas cadeiras de rodas. Todas carregam atores de “Good Morning São Paulo Mixturéba”, espetáculo da Oficina dos Menestréis que estreia amanhã (sábado, dia 7), no Teatro Dias Gomes.

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Além dos 20 deficientes físicos, participam da equipe sete deficientes visuais. Eles são acompanhados por cinco alunos de outras turmas da Oficina dos Menestréis, que atuam como membros de apoio. O grupo, que existe desde 2004, é um projeto criado pelo ator e diretor Deto Montenegro, que fundou a Oficina dos Menestréis em 1991. Todos os alunos da Companhia Mix Menestréis recebem, ao longo do ano, aulas gratuitas de teatro com Montenegro e, ao fim do período, encenam uma peça.

“É preciso ficar claro que nunca quis fazer caridade”, afirma Deto, que é irmão de Oswaldo Montenegro. Ele teve a ideia quando uma amiga sofreu um acidente e precisou usar cadeira de rodas.  “Queria ver se o método de ensino que eu aplicava nas turmas regulares dos Menestréis também servia para este público”. A primeira tentativa aconteceu em 2003, com o grupo Cadeirantes, que apresentou  o espetáculo “Noturno”.

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Membros da ONG Grupo Terra, dedicada ao atendimento de deficientes visuais, souberam da iniciativa e pediram que o diretor fizesse um treinamento para cegos. “Era apenas meia dúzia de deficientes visuais”, afirma Deto. “Então eu decidi que os cegos seriam as pernas dos cadeirantes e os cadeirantes, os olhos dos cegos”. Daí nasceu o nome Companhia Mix Menestréis.

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“Uma cadeira de rodas é a melhor bengala que existe”, diz a cantora Sara Bentes, que faz parte do elenco há dois anos. “Quando você está tocando a cadeira, percebe todo o relevo do terreno”. Nascida em Volta Redonda (RJ), ela entrou no grupo três meses depois de  perder completamente a visão por causa de um glaucoma. Em terras fluminenses, já havia participado de um grupo teatral apenas para cegos. “Mas é aqui que me sinto completa com meus amigos”.

Os deficientes visuais não entram sozinhos no palco, embora o palco tenha piso tátil para evitar quedas. O costume é que eles sejam acompanhados por cadeirantes ou membros de apoio. “Uma vez, entrei por mim mesma e o público se assustou”, lembra Sara.  O teatro também é totalmente adaptado para a chegada dos deficientes físicos, que sobem até o local por uma rampa circular em meio à sede da Oficina dos Menestréis, na Vila Mariana.

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De acordo com Deto Montenegro, não são necessárias muitas adaptações no texto da peça. O que precisa ser mudado é o ritmo das entradas em cena. “Uma pessoa em cadeira de rodas demora o dobro para sair do palco em relação a um andante”, afirma. Em situações de dança, frequentes nas apresentações da Oficina dos Menestréis, movimentos com as pernas foram substituídos por giros com as cadeiras. “Os giros ficam muito bonitos, são surpreendentes”, emociona-se Deto.

Além do Mix, a Oficina dos Menestréis estreia no dia 22 deste mês a terceira edição do musical “UP!”, encenada por  35 portadores de Síndrome de Down. Membro da equipe há dois anos, o carioca Breno Viola também é coordenador de conteúdo do Movimento Down no Rio de Janeiro. “Sempre tive o sonho de ser ator”, afirma o participante. Viola, de 31 anos, está no elenco do filme brasileiro “Colegas”, em que contracena com o próprio Deto Montenegro.

Serviço:
Oficina dos Menestréis
Teatro Dias Gomes – R. Domingos de Morais, 348, Vila Mariana, 5575-7472

Good Morning São Paulo Mixturéba
7/4 a 29/4
sáb., 21h; dom., 20h.
R$ 20

UP3
22/4 a 27/5
dom., 16h30
R$ 20

(Com colaboração de Míriam Castro)

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