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A família de Paulo Abbud, que comanda hoje os renomados restaurantes árabes Farabbud, SAJ e Manish, escreveu uma parte importante da história da culinária árabe paulistana.

Para entender essa história é preciso desenhar a árvore genealógica da família. Na década de 40, Jorge e Fauzi Farah, tios de Paulo Abbud, inauguraram a lanchonete Dunga. Jorge e Fauzi eram irmãos de Suahad Farah, mãe de Paulo. Numa festa da colônia, ela conheceu Emílio, filho do imigrante Ragueb Abbud, que veio da Síria para o Brasil em 1919, aos 29 anos. Os dois se casaram e tiveram três filhos: Ragueb, Paulo e Vivian.

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Emílio Abbud e Suahad Farah. (Foto: arquivo pessoal)

Em 1957, Emílio Abbud e os cunhados Jorge e Fauzi abriram o restaurante Abbud & Cia. Ltda. A casa, que ficava no número 2.503 da Rua Augusta, oferecia um cardápio extenso, que incluía pratos como lasanha, carne na brasa e estrogonofe, embora tivesse ênfase maior na comida árabe. Fauzi faleceu em 1959, e entraram em seu lugar Fares Sader e seu irmão, Louis Sader, que era concunhado de Emílio. Dois anos mais tarde, a razão social do negócio mudou para Flamingo Lanches. Jorge deixou a sociedade e o sobrinho Emílio fez o mesmo em 1968. Foi trabalhar como gerente em outras casas, como o Buffet Colonial e a lanchonete Deck. O negócio durou até 1983.

Mas como Paulo entrou para o ramo? Em 1951, o mesmo Louis Sader fundou o Bambi, na Alameda Santos, um dos primeiros restaurantes árabes da cidade. Foi nesse restaurante que Paulo Abbud, filho de Emílio, começou no mundo da gastronomia em 1999. Antes, ele tinha sido discotecário e dono de uma confecção de camisas.  Paulo, hoje com 55 anos, foi trabalhar como gerente,  junto com o filho, Paulo Abbud Filho, que ajudava como copeiro e caixa.

Tudo ia bem até que problemas administrativos fizeram com que a casa fechasse suas portas, em 2001. Paulo entrou em depressão. “Nós não contávamos que o Bambi iria fechar”, lembra ele. Mas Cláudia Belintani, mulher de Paulo, e Paulo Filho insistiram para que a família não abandonasse o ramo da culinária árabe. Foram eles que visitaram vários pontos até escolher o lugar que abrigaria o novo restaurante do clã. Surgiu assim o Farabbud, em 2002, em Moema. O nome é uma homenagem aos sobrenomes dos pais Suahad Farah e Emílio Abbud.

Paulo se recuperou da depressão e assumiu o comando do Farabbud com a mulher e o filho. Diferente do Flamingo e do Bambi, decidiu que o novo restaurante seria exclusivo para pratos árabes, deixando de lado a ideia de “culinária internacional” das antigas casas. A inspiração continuou sendo os pratos que Suahad preparava em casa, com pequenas “adaptações” para o paladar do cliente brasileiro. O chacrie, por exemplo, é preparado tradicionalmente pelos árabes com carne de músculo. No Farabbud, Paulo a substituiu por fraldinha. “Na época, nenhum restaurante de São Paulo tinha chacrie”, diz Paulo. “Ninguém tinha coragem de servir carne de músculo no Brasil. Depois que a gente começou a fazer com fraldinha, os restaurantes agora têm chacrie com essa carne. São todos cópia do Farabbud”.

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Chacrie com arroz chehie do Manish (Foto: Alex Silva/AE)

Paulo tem a alegria de estar cercado pelos filhos nos negócios. Patrícia, hoje com 27 anos, começou a trabalhar no Farabbud em 2002. Quatro anos mais tarde, Paulo Filho deixou seu trabalho no restaurante para tentar a carreira de piloto de helicóptero. Ele conta que foi uma época em que sua relação com o pai era um tanto conturbada. A reconciliação aconteceu quando ele desistiu da carreira como piloto e quis voltar ao ramo da culinária árabe. Decidiu abrir um novo restaurante, o SAJ, em 2008, e convidou o pai para ser sócio. Paulo recusou. “Ele saiu para fazer carreira solo, não foi?”, brinca o pai. Paulo Filho, 31 anos, fez sociedade com um amigo, Ricardo Castanho Pinho. A proposta do SAJ nasceu diferente do Farabbud. Localizado na Vila Madalena, o restaurante é voltado para o público mais jovem e foi feito para ser mais descolado. “Quis sair do padrão de restaurante árabe com cara de casa de família”, afirma Paulo Filho. A casa também tem pratos típicos da comida do Líbano, em homenagem a Carla Skaf, descendente de libaneses e mulher de Paulo Filho.

Em maio passado, Paulo abriu a terceira casa Abbud de comida árabe na cidade: o Manish, localizado no Itaim Bibi. Patrícia saiu do Farabbud para trabalhar como gerente no novo restaurante. Em seu lugar entrou Renata, de 30 anos, outra filha de Paulo. O enteado de Paulo, Caio Belintani, 19 anos, também trabalha no Manish, como gerente financeiro – antes, ele fez um estágio no SAJ para se familiarizar com o ramo.

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Família que trabalha unida: Caio, Patrícia, Paulo, Renata e Paulo Filho. (Foto: Karina Trevizan/AE)

Bem, os dois netinhos de Paulo ainda não participam dos negócios culinários da família – Valetin, filho de Renata, tem 3 anos, e Alice, filha de Paulo Filho, 10 meses. Mas não deixam de estar presentes no Manish. Eles são “nomes de salada”. A Valetin leva folhas verdes temperadas com molho à base de mel e redução de balsâmico, pedaços de chancliche, figo e nozes torradas. Já a Alice é feita com alface americana, peito de peru light, cenoura, beterraba, queijo parmesão e molho de mostarda.

(Com colaboração de Karina Trevizan)

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