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No dia 2 de setembro de 1971, um anúncio de página inteira na Folha de S. Paulo trazia a nissei Akiko Tanaka divulgando para o público uma novidade: a inauguração do Centro de Compras Yaohan. Apresentando-se como uma das funcionárias do “supermercado e superloja”, Akiko revelava no anúncio a veia revolucionária do empreendimento erguido na esquina da Rua Cunha Gago com a Teodoro Sampaio, em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo: “O método de comércio que a Yaohan trouxe do Japão são absolutamente novos”, destacava. A inauguração aconteceu no dia 24 do mesmo mês.

A ousadia dos japoneses que escolheram a capital paulista para sua primeira loja fora do Japão ficou mais evidente quando outro anúncio de página inteira trazia a bandeira da rede fincada sobre o mapa do Brasil. Acima, em um texto chamado “Obrigado, Brasil!”, Kazuo Wada, presidente da Yaohan no Brasil, creditava a chegada ao país como “uma indicação de Deus” e prometia “colaboração estreita para a melhoria do nível de vida do nobre povo brasileiro”.

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Para inserir o consumidor brasileiro no contexto nipo-brasileiro em que foi erguido no ano de 1948, a Yaohan começou a sua jornada em São Paulo com uma promoção curiosa: todos os clientes que consumissem mais de 50 cruzeiros (pouco mais de 220 reais, segundo a correção do Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna) no local ganhariam uma pérola japonesa. Só nos quatro primeiros dias a loja distribuiu 18 mil pérolas. O impacto logo foi sentido pelos comerciantes de Pinheiros, que viram suas vendas cair 6% na primeira quinzena dos japoneses na cidade, em uma escala que bateria nos 30% até o fim daquele ano.

O “tratamento cordial”, regra número um aos funcionários na convivência com os clientes, estava amparado nos dogmas do Seicho-No-Ie, religião japonesa para a qual “todos os homens são filhos de Deus”. “Não havia a filosofia de lucro da empresa, mas sim de bem-estar do cliente. Todos os dias antes de abrir o supermercado o Kazuo Wada reunia os funcionários e nos passava uma mensagem espiritual”, recorda Marie Murakami, hoje com 68 anos, que trabalhou no departamento de recursos humanos da Yaohan desde a inauguração até 1976. Ela garante que o fato da empresa estar amparada em bases japonesas não excluía os demais brasileiros do quadro de funcionários: “Havia um grande número de funcionários descendentes de japoneses, mas essa não era uma regra”.

Tratava-se de uma grande megastore, uma das primeiras do Brasil a apostar na mistura de supermercado com outros serviços como brinquedos, roupas, utensílios domésticos e outros produtos (a reportagem não conseguiu fotos do interior da loja). Um generoso aporte de 1,5 milhão de dólares (hoje, 4,8 milhões de reais) foi oferecido em forma de financiamento pelo governo japonês. O diretor de relações públicas do grupo, Tsuyioshi Miyhara, afirmava aos jornais que em dez anos pretendia ter 100 supermercados espalhados pelo Brasil, além de pagar à pátria-mãe cada centavo recebido.

O centro de compras era dividido em sete departamentos: supermercado, restaurante, cama e mesa, confecção, biofarma, eletrodomésticos e artigos para presente. Dois restaurantes e o Terraço do Chope da Yaohan completavam a estrutura. Um dos restaurantes era o Shabu-Shabu, que tinha esse nome por causa de um prato japonês feito com lâminas finas de contra-filé ou lombo suíno, acompanhado de macarrão, legumes e arroz branco. Com uma linha mais popular, o restaurante Bambi era especializado em pratos árabes.

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Ainda que a estrutura já fosse suficiente para impressionar qualquer paulistano da época, outros 4 mil metros quadrados foram erguidos em uma reforma de ampliação realizada em julho de 1972, menos de dez meses depois da inauguração. Um sinal de que a resposta do consumidor brasileiro aos métodos japoneses de comércio foi altamente positiva. De quebra, ao mesmo tempo, começaram as negociações da Yaohan para a construção de uma segunda loja, que seria inaugurada em setembro do ano seguinte na rodoviária da cidade de Sorocaba (SP).

A marca começou a se fortalecer também na mídia brasileira. A Yaohan ganhou um jingle interpretado pela maior estrela oriental do país naqueles tempos: a cantora, apresentadora e atriz Rosa Miyake, hoje com 71 anos. Ela estampava a capa dos pequenos discos com os jingles, que eram distribuídos nas lojas. No lado B,  a mesma Rosa interpretava “Parabéns pra você” (ouça abaixo as duas faixas). À época, ela apresentava o programa “Imagens do Japão”, patrocinado pela marca.  Foi nesse contexto que a Yaohan entrou para patrocinar também um concurso de calouros musicais: “A ideia foi do produtor Mario Okuhara”, afirma Rosa, que era casado com ele. “Sempre, na abertura do quadro, eu cantava o jingle. Foi o maior sucesso”.

Ouça o jingle da Yaohan, de autoria de H. Sakao, na voz de Rosa Miyake:

Rosa Miyake canta “Parabéns para você” no lado B do disco:

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A capa dos discos distribuídos aos clientes da Yaohan com o jingle da empresa (Foto: Mário Jun)

O projeto de expansão do grupo começou a ganhar contornos mais ousados e, assim, vieram também os primeiros fracassos. No dia 23 de agosto de 1973, a Yaohan fechou contrato para uma filial no Rio de Janeiro, no que seria “o maior shopping center do Rio de Janeiro”. Um mês depois, começaram as negociações com a prefeitura de Marília (SP). Nenhuma das duas lojas, no entanto, acabou saindo do papel, brecando os objetivos mais ousados de Kazuo Wada e concentrando as forças do grupo na cidade de São Paulo, onde a loja de Pinheiros continuava fazendo sucesso.

Também havia a tentativa de estreitar laços com a matriz japonesa. “Os gerentes ganhavam frequentemente viagens ao Japão para conhecer as lojas de lá”, conta Marie Murakami. Em novembro de 1973, a Miss Brasil Sandra Mara Ferreira foi convidada pela matriz para uma viagem ao Japão. A filial brasileira, em Pinheiros, ofereceu um badalado coquetel antes do embarque. Ao mesmo tempo, foram exportados 25 artigos da loja daqui para duas novas filiais japonesas construídas nas cidades de Tóquio e Osaka. Dentre esses itens, os principais eram objetos de praia.

Com os negócios evoluindo muito bem, a rede preparou uma festa para comemorar três anos de Brasil em 6 de agosto de 1974. Os Originais do Samba fizeram um show onde autografaram exemplares do “Pra que Tristeza”, o LP do grupo que acabara de ser lançado. Uma grande promoção também foi estampada nos jornais. Para terminar as comemorações, o anúncio de que 500 vagas de emprego seriam abertas para a inauguração da terceira loja: em novembro, a Yaohan abriria as portas no Shopping Center Continental, um novo conjunto comercial que seria inaugurado na Avenida Corifeu Azevedo Marques, em Osasco, Grande São Paulo.

A inauguração do Shopping Continental é um bom exemplo do prestígio do qual desfrutava o Yaohan naquele 1974: nos anúncios antes da inauguração, ainda em setembro, o supermercado era o primeiro colocado na lista de 50 estabelecimentos que já haviam firmado contrato com o shopping. Com essa loja e outras três (uma inaugurada em maio de 1975 no Butantã e as outras duas em 1976, no Mackenzie Hill de São Bernardo do Campo, e na Estrada de Parelheiros, em Interlagos), o faturamento anual estimado chegou a 250 milhões de cruzeiros (quase 550 milhões de reais segundo o IGP-DI).

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O começo do fim da Yaohan em reportagem da Folha de S. Paulo

A festa de inauguração da nova sede central da filial brasileira, no Jaguaré, em dezembro de 1976, foi uma espécie de canto do cisne da Yaohan no Brasil. Dali em diante, o grupo mergulhou em uma crise inesperada. A loja no Continental Shopping foi um enorme fracasso, levando ao atraso algumas obras importantes. Além disso, o custo das importações foi se tornando alto demais para as receitas da empresa. A Yaohan entrou com pedido de liquidação judicial. Com 157 milhões de cruzeiros em dívidas (163 milhões de reais corrigidos pelo IGP-DI) e 14 empresas pedindo a falência do grupo, os japoneses hipotecaram um imóvel de 250 milhões de cruzeiros (260 milhões de reais) e com área de 5 mil quilômetros quadrados na cidade de Cubatão (SP).

Essa garantia apenas protelou a falência da Yaohan no Brasil. Em maio de 1978, a concordata preventiva conseguida pela empresa foi questionada publicamente pelos credores, que contestavam a decisão judicial e protestavam contra a queda vertiginosa dos seus créditos. A situação se arrastou até março de 1980, quando a Yaohan desistiu da concordata preventiva e, assim, teve sua falência decretada, encerrando a sua jornada de quase nove anos em terras brasileiras. “Lamentei muito o fim da Yaohan. Era um lugar muito bom de se trabalhar. A diretoria tinha o maior respeito pelos funcionários e só saí de lá porque me casei”, afirma Marie, que destaca ainda o fato dos salários oferecidos estarem acima do mercado na época.

Um pouco antes da falência definitiva no Brasil, em 1979, a empresa começou a explorar o mercado norte-americano com uma loja na cidade de Fresno, na Califórnia. Nas décadas de 1980 e 1990, a Yaohan se expandiu para a Ásia, com foco especial nas economias emergentes como Singapura, Hong Kong, China e Macau. Ao mesmo tempo, países americanos como Cuba, Costa Rica e Canadá também ganharam suas lojas. A Yaohan chegou a ter 22 lojas abertas fora do Japão e alcançou até mesmo o mercado europeu com uma filial em Londres.

O New Yaohan em Macau: única loja que preserva o antigo nome

A crise econômica do final da década de 1990, porém, atingiu mundialmente a empresa, que acabou sendo vendida em março de 2000 para o grupo financeiro Aeon, que rebatizou os supermercados como MaxValu Tokai. As lojas espalhadas pelo mundo foram cedidas para diferentes conglomerados internacionais. Em setembro de 1997 foi aberta em Macau a New Yaohan, única loja da atualidade que ainda preserva o nome dos audaciosos empreendedores japoneses que viveram uma aventura no Brasil da década de 1970.

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